Wednesday, July 16, 2008

Aerogramme - Seclusion


O Aerogramme eu conheci por acaso, após o projeto In The Fishtank e o disco que eles compuseram junto ao Isis. A banda já foi rotulado com todos os nomes que permeiam a cena do rock contemporâneo: de Emo a Post Rock. Na realidade, o Aerogramme não passa de uma banda recheada de músicos competentes e que produziram alguns dos melhores discos da década. Garimpando na internet, encontrei o Seclusion, um EP turbinado, que, na minha opinião, é o melhor disco do Aerogramme e antecede o último disco da banda, que logo será postado aqui. Indo fundo na busca da expressão sentimental unindo música e letra, o Aerogramme produz um som absolutamente hipnótico e acessível. O disco premia o ouvinte mais atento com uma produção belíssima e composições que são complexas em sua simplicidade. Mais uma vez, o peso aliado a melodia, permeado com interpretações extremamente competentes. Pena a banda ter acabado em 2006.
Com certeza, os dos melhores discos dos últimos tempos.

D/L [...]

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Oceansize - Frames


Este é último disco do Oceansize, intitulado Frames, que estava aqui na minha máquina a algum tempo. Na época em que o peguei, gostei do que escutei, mas ele ficou ali, parado. Nunca mais o ouvi. Meses depois, dei um o escutada nele no Ipod, indo para algum lugar: o disco é simplesmente sensacional e fascinante. Composições que variam de melancólicas e liricamente belas, a explosões de guitarras e distorção, sem perder o bom gosto e a classe. Destaques para a s faixas "Commemorative 9/11 T-Shirt" e "Voorhees": simplesmente fantásticas. Caminhando entre um heavy metal extremamente agressivo e o rock progressivo, sem deixar de lado a melodia e a atmosfera, o Oceansize é uma das bandas mais interessantes da atualidade. Rock e heavy metal adultos (AOHM!?), como deve ser. Bolachinha imperdível, para ouvir e viajar.

D/L [...]

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Wednesday, June 25, 2008

Torrente

Uma xícara de café e um cigarro. Os pensamentos ecoam pelas paredes sem quadros. Ela bate a cinza no cinzeiro que está em cima do criado mudo. No espelho quebrado, vê o gesto de seu braço: a ponta brilhante do cigarro faz um arco no ar.

“Sim, vagalumes!”.

Sorriu para si um riso seco. Ela pára, olha para o teto e respira: ouve os silvos do ar enchendo os pulmões. “Estou ficando doente”.
Uma tragada na bituca, um gole no café frio. Mais uma baforada lenta. O quarto se enche de fumaça. “A janela está fechada”. Todas estão. Suavemente, Ana põe a xícara de café ao lado do cinzeiro. Pega um copo d'água e leva a boca. Molha os lábios, e depois, um gole generoso. O calor é insuportável. Uma gota de suor que lhe escorreu da testa lhe fica presa no canto da boca. Sente o gosto amargo-salgado e cospe no chão sujo do quarto. A televisão está ligada e ela baixa a cabeça em direção a tela. “Qual é o nome deste filme mesmo? Ah sim....”. A sirene da ambulância ecoa na noite sem estrelas: “Maldita insônia”, pensou, apagando o cigarro na madeira nua.
Espremida no canto da cama de casal, só um pequeno espaço lhe resta: perna pede para o chão. O homem grande que está deitado ali não lhe deixa muita alternativa. Ela se espreme, respira fundo e fecha os olhos. A cama se mexe. O copo cai no chão de taco escuro mas não quebra.
Num lampejo, Ana lembra da sua meninice, e da vez que fugiu de casa. “Dez ou doze dias?”, perguntou a si mesmo. Dez ou doze; não lembrava. Mas importava? O que lhe veio na memória foi o doce gosto do perigo. Aos onze anos, conheceu Marco na escola. Brincavam juntos e de maneira pouco inocente, deram ali o primeiro beijo. Um dia, Marco lhe propôs uma pequena aventura. Juntos, seguiram a linha férrea que cortava o bairro. Passaram por construções, vilas e estações. Atravessaram a pequena ponte de concreto que saltava o rio. Ana viu um mundo novo, diferente. Uma semana depois voltaram: a mãe chorava no quarto e o pai esperava sentado na porta da casa. Como sempre, ele não lhe disse uma palavra – aliás, Ana contava nos dedos às vezes que havia conversado com o pai. Do episódio da fuga, até hoje lembra da expressão daquele rosto, da cor amarela da cadeira e do grito da mãe quando ouviu sua voz.
Já um pouco mais velha, foi viajar. Sem dinheiro. Escorrendo suor entre as pernas e bebida lhe pingando dos lábios rosados. Voltou só quando o pai morreu. Chorou, mas só naquele mesmo dia. Por sua causa, amava o desassossego. Alugou um apartamento na cidade. Vivia assim, como que levando: às vezes tinha companhia, outras não.
A garrafa de pinga em cima da mesa, o café, o cigarro.
Sem saber porque, naquela noite Ana, lembrou daquele dia. Os ruídos da noite a incomodavam. desligou a TV. Puxou o lençol para junto do corpo. Virou de lado. Tapou os ouvidos com as mãos.

“A campainha tocou?” se perguntou em silêncio.

Estremeceu da cabeça aos pés. Abriu os olhos e as sensações lhe tomavam todo o corpo. No quarto escuro, as imagens se formavam na fumaça que pairava no ar. Podia ver como se fosse hoje. Como se vivesse novamente aquele momento. Marco estava na porta do apartamento. “Eu estava de ressaca”. Nas mãos do homem, duas malas e um envelope. Ana não o via a uns bons anos, mas ainda o reconheceu. Abriu a porta. Apenas o olhou nos olhos. Todos os homens do mundo desapareceram. Havia apenas Ana, a porta, e Marco. Ana balbuciou algumas palavras.
Mas o homem caiu de joelhos e chorou. Apenas levantou as mãos com o envelope, como uma oferenda. Marco lhe agarrou as pernas. Ana abriu a carta. Um exame. Ele corre os olhos pelas palavras impronunciáveis. Chegando ao final, entendeu. Ele estava condenado. Não ia mais andar. Doença degenerativa. Batata. Ana não sabia o que fazer. Marco entrou sentou no sofá e tropeçava na ordem das palavras. Tremia como uma criança perdida. Ana não entendeu. Num estalido, olhou as malas. Ficou pálida. “Ele quer morar aqui” pensou.

“Ele mora aqui a 18 meses, 4 semanas e 2 dias”, refez as contas de cabeça.

Ana levantou-se. Seu coração era esmagado com a força. Seu estômago doía. Foi tomar um banho, não agüentava mais. Abriu o chuveiro e ascendeu outro cigarro. O ar quente enfumaçou o espelho. Via apenas a silhueta do seu reflexo. Entrou na banheira com a água. Apagou a luz e pegou a bucha. Se esfregava com força. De sair sangue. A água tornou-se de um rosado rubro. Ofegante e sozinha. Uma pausa. Ouvia apenas a disritimia sincopada de sua própria respiração.

“Acabou a água”.

Fechou os olhos e adormeceu.
Era de madrugada ainda. Ana saiu molhada do banho. Nua, caminhou até a cama. Viu o corpo imóvel de Marco. Ele dormia profundamente. “Dopado de remédio”, pensou. Ana segurou a mão grande e fria. Com um joelho sobre a cama, mas ainda de pé, fez com que aquela mão percorresse todo o seu corpo. Deslizou-a por entre os seios. Acariciou os mamilos. Desceu até a boceta.
Ana gemeu alto e desmaiou - misto de prazer e cansaço.

(...)

O despertador apita. 7:00 da manhã. Ela se levanta e vai preparar um café. Não há uma noite que ela não pense a respeito. Ana vai até a porta do quarto. O corpo imóvel de Marco repousa por entre os lençóis azuis encharcados de suor. De repente, uma virada de cabeça, ele olha para ela, com a cabeça, um aceno. Ele se vira sem falar nada.

“Até quando?” - ela pergunta baixinho, enquanto lava a louça.

Um suspiro surdo. Ela baixa a fronte. Olha no relógio e sorri.

Saturday, May 17, 2008

Cult of Luna - Eternal Kigdom



Desde que despontou no cenário da música pesada de vanguarda, o Cult Of Luna sempre me impressionou. Alguns diziam que eles copiavam o Neurosis, outros dizim que era um arremedo de doom, e outros....Foram muitas as críticas. O tempo passou, os discos foram ouvidos, as críticas foram depostas. O Cult of Luna é uma das melhores bandas do heavy metal atual. Seu som pode ser definido como uma mistura de doom metal com art rock, mas com muito mais enfase no primeiro, o que caracteriza um som bastante denso e atmosferico, porém, bastante dinamico e melodioso. Mudanças frequentes de andamento, incursões de elementos eletronicos, bateria precisa e guitarras distorcidas.
O último album do Cult of Luna chama-se Eternal Kingdom, e acabou de sair pela Eerache. Composto com base das anotações do diário de um psicopata preso por matar a esposa, o album pretende-se uma viajem pela insanidade. A sonoridade presente segue as caracteristicas do grupo, porém não apresentam o impacto criativo de Somewere Along The Higway, album anterior. Mesmo assim, imperdivel.

D/L [...]

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Tuesday, May 06, 2008

Guapo - Elixirs


Bélissimo lançamento da Neurot Records desta excelente e prolífica banda inglesa. O estilo é aquele que ficou conhecido como Post-Rock, mas na verdade, trata-se de uma banda madura e difícil de rotular. Com passagens que vão do Jazz Fusion até a música de vanguarda, passando por nuances dos primórdios do King Krimson, o ingleses do Guapo nos apresentam um belíssimo trabalho. Este álbum fecha a trilogia composta por Five Suns, de 2004 e Black Oni de 2005 de forma magistral.

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Friday, May 02, 2008

Tool - 10,000 Days


Em Maio de 2006, a espera acabou. O Tool lançava seu quarto álbum de estúdio, depois de um hiato de 5 anos desde Lateralus. 10,000 Days chegou as lojas, vendeu horrores e ainda ganhou um premio Grammy. Este hiato de cinco anos desde o lançamento do álbum anterior geraram diversas dúvidas com relação a este próximo álbum. Com seu lançamento, ficou claro que o Tool levava a matemática do heavy metal por mares ainda não antes navegados. Entender os conceitos (ao mesmo tempo bizarros e belos) por trás das músicas é uma tarefa complexa, mas prazerosa. O conceito do álbum gira em torno de devaneios internos e sentimentos. Dez mil dias (ou 27 anos) é o tempo em que a mãe de Kennan ficou parcialmente paralítica, o que resultou em sua morte.
Musicalmente, o álbum é um deleite, do início ao fim. Mudanças de andamento rítmicas, peso e texturas sonoras em abundancia. Progressivo sem ser chato, pesado sem ser rude, complexo sem ser presunçoso. Musica e arte. Aguardo ansiosamente a próxima pedrada.

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Luto - Charles Tilly


Morreu no ultimo dia 29, o grande mestre Charles Tilly - papa da sociologia histórica comparativa contemporânea.

A boa ciência faz reverencia.

T.

Monday, April 28, 2008

Tool - Lateralus


Lembro-me exatamente da primeira vez que ouvi o Tool. Estava na Nuvem Nove, e vi um disco que me chamou a atenção: a caixinha era toda preta, e possuía várias camadas, que as sobrepondo, formavam-se diferentes desenhos. O CD vinha lindamente prensado como se fosse uma serra. Coloquei a bolachina no Player. Aquele Baixo! Que som de Baixo era aquele! A bateria, as guitarras, as vozes, a produção, as letras! Que banda era aquela? Que disco era aquele?

Lateralus é o terceiro disco desta banda americana, e foi lançado em 2001. São 78 minutos e 58 segundos da mais pura magia travestida de Art Rock/ Heavy Metal. É um disco para se ouvir de um fôlego só, sem pular nenhuma faixa. Certa vez, li em algum lugar que a trinca "Disposition", "Reflection" e "Triad" seriam as obras mais complexas e completas do Rock desde o lado A do Ummagumma do Pink Floyd: concordo com a afirmação. Não há muito o que comentar, apenas que Lateralus é, na minha opinião, o disco de Rock mais importante desta década, da melhor banda da atualidade. Uma viagem musical inesquecível.

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Tuesday, April 22, 2008

Ulver - Shadows of The Sun


O que dizer do Ulver? Depois do excelente Blood Inside de 2005, o Ulver retoma os trabalhos e lança este pérola em 2007. Em Blood Inside, o Ulver já havia demonstrado seu rompimento com o Black Metal de antigamente e fincava os pés em uma sonoridade muito mais atmosférica e sombria. Porém, em Shadows of The Sun, o Ulver praticamente sepulta o disco anterior, atingindo um nível de maturidade emocional em suas composições que facilmente os colocam como um dos grupos experimentais mais interessantes da atualidade. A sonoridade muito mais orgânica, limpa e (porque não?) sublime do álbum é capaz de nos transportar para além da imaginação: ouvindo com fone, praticamente ficamos absortos com as imagens sonoras oníricas que explodem nos ouvidos. A bolachinha ainda trás algumas surpresas: o cover de “Solitude”, do Black Sabbath, a utilização do Teremin em duas faixas, e o mais de um minuto de absoluto silencio em “What Happened?”. Um clássico moderno.

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