Pertence

Ela continua olhando para tela vazia em cima do cavalete. Nem lembrava que não sabia pintar. Nem lembrava que nunca havia visto todos aqueles materiais que estavam esparramados em cima da mesa agora. O quadro, o pincel, as tintas, as misturas. Na verdade, nem sabia bem o que eram. Mas ela não estava ali realmente. Seu espírito pairava em algum lugar onde as memórias adormecem. Christine, com os olhos plácidos e o semblante calmo, admirava aquela paisagem que repousava em sua mente.
A sua frente, um mar de leite branco de menos de um metro quadrado, onde se podiam entrever ranhuras e treliças do tecido rugoso que formam aquilo que se convenciona chamar de “tela”. Profundo vazio bidimensional. Relegada a si mesma, imaginava campos verdes e lindas montanhas com os picos preenchidos pela neve que sempre sonhou em ver. Mergulhava infinitamente naquela quietude, onde nem o farfalhar de folhas secas podia ser ouvido. Por um segundo infinito, ela evaporou, tornou-se liquida, ecoando em seus versos particulares. Assim aprendeu a lidar com o mundo. Prostituta, perdeu a noção de quantas vezes havia abandonado a si mesma, deixando seu corpo pairando em sonhos e devaneios infindáveis. Nem dor, nem prazer, nem nojo, nem tesão. Depois de algum tempo, o sexo torna-se mecânico, um mero meio. A vergonha é suprimida pela necessidade. Christine não mentia para si: às vezes (mas só de vez em quando) sentia excitação, paixão. O desejo de ser desejada. Entregava-se ao amor de estranhos quase que como amantes há muito conhecidos. Em momentos assim, libertava-se. Sentia-se mulher. Entregava-se ao momento e perdia a noção de si e do tempo. Descuidava-se dos cuidados primários da profissão e em um lapso do acaso, ficou grávida.
Ao estalido do grito de sua própria solitude, acordou do sonho matutino. Há anos sentava ali todo o dia 22 de abril, onde, com seus traços tortos, rabiscava aquela mesma paisagem que se espraiava até os limites de sua vista.
Fazia já 25 anos, ela pensou. Olhou pela janela, viu os carros, os prédios, os passantes. Um silêncio profundo ecoava em sua mente. Um suspirar lento delineava um movimento quase imperceptível em seu corpo.
Mais uma vez sem querer, adormeceu acordada, perdida por entre um labirinto particular de pensamentos. Christine não pôde ouvir a buzina da ambulância que cruzou a rua em direção a velha catedral.
Pensava sem preucupar-se com a lógica, em cada detalhe daquela manhã de tantos anos atrás. Lembrava-se bem daquele dia: eram 13:30 da tarde. No dia anterior havia acabado de dar a luz a um menino, que chamou de Pedro, devido à chuva que caia naquela manhã. Estava só, com o filho recém nascido nos braços mamando alegremente em seu seio, o qual segurava firme com ambas as mãozinhas. Christine não sabia quem era o pai. Naqueles dias, tinha muitos clientes e estava gostando de trepar. Era jovem, e rapazes jovens se interessavam por ela. Teve o bebê em casa, com a ajuda de uma parteira vizinha sua que também era prostituta. A moça havia se tornado parteira na profissão, aprendendo também técnicas de aborto - muito úteis dadas às circunstâncias. “Ossos do ofício“ gostava ela de repetir, sem qualquer vergonha ou cerimônia. Chamava-se Maria, e Christine achava engraçado o destino daquela mulher loira oxigenada, corpulenta e nariguda (mas que ainda tinha seus encantos) que tinha o mesmo nome da Mãe de Jesus e que carregava o fardo diário de tirar e trazer tantas crianças ao mundo.
Christine era católica fervorosa desde criança. Sempre perguntava a Maria quando esta deixaria de ser parteira. Questionava-a sobre pecado, sobre a Bíblia, sobre a ira divina, sobre o Juízo Final. Maria nada respondia. Depois de seu parto, Christine nunca mais perguntou a Maria nada a respeito deste assunto, guardando para si um profundo silêncio e uma profunda vergonha. Nunca mais leu a Bíblia, nunca mais rezou o terço. Nunca mais ficou de joelhos e nunca mais beijou a mão de ninguém.
O som daquele domingo distante no tempo era um dissonante ruído de burburinhos que podiam ser ouvidos ecoando da janela vizinhas. Christine lembrava daquelas imagens e daqueles sons como se estivessem presentes no agora. O centro da cidade funcionava no movimento da capital: aos finais de semana, mudavam seus visitantes. Nos dias de semana, trabalhadores, boys, carteiros, camelôs. Nos fins de semana, o que a burguesia da cidade teima em esconder aparece: todo um submundo de excluídos a quem aquele lugar não pertence nos dias úteis. Apenas os cabeleleiros e os botecos estavam abertos: um atendia as prostitutas, que se preparavam para a noite, os outros atendiam os clientes, que circulavam aquelas ruas desde o fim da tarde.
Continuando em sua espiral interior, Christine lembrou-se de que 25 anos atrás, pegou uma folha de papel lilás que havia em sua escrivaninha, dois lápis, e borracha; colocou tudo sobre a mesa que usava de suporte para o café da manhã, e começou a desenhar o que via.
Da janela, podia observar a decadente paisagem urbana do centro da cidade: o bairro operário transformado em dormitório. Um cortiço sujo, onde a arquitetura semi-clássica da fachada contrastava com a imundice dos corredores que há muito não eram limpos. Eram apenas 9 apartamentos. Nos degraus que cobriam os três andares do Prédio, jovens transavam na calada da noite, ou consumiam baseados. Era uma avenida comum daquela parte da cidade, cobertas de fios de alta tensão, onde alguns carros iam e vinham, serpenteado por entre outros prédios decadentes e crianças peladas de barriga inchada. O prédio erguia-se na sobreloja de uma padaria (que era na verdade um boteco qualquer - e onde não se vendia pão). Mas naquele domingo, a paisagem bucólica e vazia de sentido havia despertado para Christine - que com olhos cansados, porém lúcidos, olhou o mundo como se fosse a primeira vez. Agora tinha um filho e tinha que cuidar dele.
Desenhou com esmero cada poste pássaro e rosto que via. Margeava e tentava trabalhar a luz que via, a sombra e toda sua dinâmica. Um amontoado de riscos pretos, de diversos tamanhos e grossuras cruzavam aquele papel velho. Com cuidado, e aos poucos foi finalizando aquilo que qualquer desenhista com o mínimo de técnica consideraria um tosco esboço. Para Christine, a paisagem que via e sentia materializava-se naquelas linhas tortas. Não sabia desenhar, mas caprichava em cada linha, como um Picasso ou Miquelangelo. Suava, ofegava, tremia. Com os olhos marejados, pensava no filho recém nascido por quem nutria um amor infinito e sincero. A ela, lhe agradava os traços infantis e a mão pesada. Fez uma promessa silenciosa para si. Na verdade duas. Vinte e cinco anos tinha, vinte e cinco anos se passaram. Vinte e quatro desenhos fez. E ela, ano a ano, como em uma espécie de celebração, tomava esse momento para si. No dia seguinte ao aniversário do filho, se sentava em frente a janela e desenhava com todas as forças que tinha o que via e sentia. Este seria o vigésimo - quinto. Tinha agora cinqüenta anos.
Desde aquele dia, nunca mais saiu de casa. Seu mundo era uma janela.
O apartamento mudou pouco desde então, com apenas a adição de uma mesa e um sofá cama - que lhe foi doado pelo vizinho pouco antes de morrer. Era um apartamento pequeno com um quarto e uma sala. O quarto virou o quarto do filho, e ela pouco ia lá quando não eram mais necessários seus cuidados maternos. Conhecia de cor aquele corredor estreito, da porta até a geladeira - que saia da sala, cruzava a soleira que dividia os cômodos e chegava a pequena cozinha. Também havia o banheiro que tinha porcelanas brancas que cobriam a parede só até a metade. Muitos anos depois, em seu leito de morte, Christine ainda se lembrava de cada detalhe daquele apartamento, o qual havia passado quase toda sua vida trancada: cada enfeite, cada móvel. Da maneira como a luz entrava na casa em determinadas horas do dia (e como mudava nas diferentes estações do ano). Mas não pôde se lembrar do banheiro.
Christine prometera não sair mais de casa. Abriu a porta somente para os clientes que sempre iam lá, (e para Maria, até que esta nunca mais apareceu). Logo espalhou-se a história da puta que não saía de casa: tornou-se uma espécie de fetiche, que aumentou sua clientela.
Trancava o filho a chave no quarto sempre que chegava alguém. Abria o sofá cama e trepava por míseros trocados. Sempre das 8:00 às 5:00. Nunca atendeu clientes fora deste horário. Precisava ser mãe. Nos entreatos dos clientes, lia para o filho histórias infantis ou criava jogos imaginários. Não precisava de nada que não tivesse logo a mão. O senhorio lhe cobrava o aluguel, que ela lhe pagava por um envelope que passava por debaixo da porta. Comprava comida do pequeno Mercado da frente. O português da venda, conhecendo as manias da ilustre cliente, desenvolveu com esta uma série de sinais visíveis para quando precisava comprar algumas coisas. Christine colocava uma toalha vermelha na janela e o velho Pereira já sabia o que ela queria: nada de luxo, apenas o básico - arroz, feijão, óleo, açúcar, sal, leite, macarrão, etc. Apenas o que precisava para si e para o filho. Pereira lhe enviava a mercadoria por intermédio de Bidu, seu ajudante, que sempre se masturbava pensando em Christine. Bidu era uma das poucas pessoas que conversavam com Christine nas horas em que esta não trabalhava. Quando este fez dezoito anos, ganhou dela sua descoberta no sexo, o que criou entre os dois uma espécie de companheirismo quase sem palavras, onde olhares diziam mais que frases inteiras. Bidu sempre visitava o sofá cama de Christine, e essa sempre o atendia de bom grado.
Assim, Christine viveu dia após dia. Vendo o mundo da janela de seu apartamento ou pelas poucas palavras que os clientes traziam da rua. Ano após ano. Sem televisão, sem rádio, sem jornal. Apenas Pedro e os clientes.
De volta ao presente, viu o cavalete, a tela, os pincéis. Lembrou-se do dia anterior, e da visita de um cliente novo, o qual não lembrava o nome. Estava bem vestido, de terno e gravata, usava uma barba rala e tinha certamente mais de quarenta anos. Ele entrou e nada falou, trazia um grande saco plástico cinza, que deixou logo ao lado da porta. Pediu apenas o silêncio de Christine e lhe perguntou se podia usar o tempo que tinha para ficar apenas ali, olhando-a. Christine acenou com a cabeça apontando que sim, apesar de ter se assustado com o pedido. Os dois ficaram lá, em silêncio, um de frente ao outro. Passada meia hora, o distinto senhor se levantou, fez uma reverência e lhe dá adeus. Em baixo da soleira, ainda de costas, pede para Christine aproveitar o presente. O homem vira-se, fecha a porta e vai embora.
Mesmo com a porta fechada ela consegue ouvir os passos do estranho homem descendo as escadas do prédio. Aterrorizada, Christine olhou fixamente o saco plástico cinza. Não sabia o que fazer. Pensou em jogá-lo pela janela, mas desistiu. Foi traída pela própria curiosidade. Abriu o saco e viu todo aquele material: a tela, o cavalete, as tintas, os pincéis, as misturas. Nunca havia visto nada igual. Espalhou todos os itens na mesa armou o cavalete, colocou a tela no lugar correto, e foi dormir.
Estava agora ali. A data: 22 de abril. Tinha que fazer mais um desenho. O vigésimo - quinto. Nunca havia pintado. Sempre usou o lápis. Naquele momento, todas as lembranças de seu passado tornaram-se sonhos cristalinos. Pedro dormia no quarto: ontem havia feito 25 anos. Nunca havia saído de casa. Brincava com a mãe como uma criança. Não sabia ler nem escrever.
Com a mão trêmula, Christine deu algumas pinceladas na tela em branco. Não formavam forma alguma. Lembrou-se de maneira repentina que já era uma mulher de meia idade. Lembrou-se do medo que tinha do mundo. Um pavor percorreu seu corpo, estremecendo cada um de seus músculos. Jogou tudo no chão com violência. Levantou-se e com as duas mãos, apoiou-se na janela. Lágrimas infinitas caiam de seu rosto. Buscava entender o porquê de suas promessas: porque fazer um desenho por ano? Porque nunca mais sair de casa? De repente, viu que suas razões haviam se perdido no tempo. Soterradas pelos dias que passaram, não era mais capaz de lembrar para si mesmo as razões de tudo aquilo. Percebeu que vivia uma vida sem justificativa, sem razão alguma. Olhou para todo o apartamento pequeno. Vestia um vestido azul já bem velho. Limpou o rosto com as costas das mãos. Abriu a porta da sala que dava para o corredor. Olhou pela última vez o porta do quarto do filho: suspirou triste e lhe desejou do fundo do coração que fosse feliz - não tinha coragem de se despedir. Fechou os olhos e deu um passo. Atravessou a soleira. Com um olhar firme seguiu em direção a rua. Como se fosse a primeira vez. E de fato, era.
Deixou atrás de si a porta aberta. Nunca mais soube do filho, e ele nunca mais soube dela.
No outro dia, Pedro recolheu tudo que sua mãe havia deixado. Já sabia de tudo. Remontou o cavalete, organizou as cores, observou atentamente as misturas. Fechou a porta e se sentou em frente da janela, como sua mãe há 25 anos atrás. Pedro, com lágrimas nos olhos, deu as primeiras pinceladas na tela. Cobriu os riscos disformes em vermelho da mãe. Observava atentamente a paisagem que se deitava nua a sua frente: aquela paisagem que em sua dinâmica infinita, permaneceria para sempre eterna e lhe pertencia como seu próprio sangue.
A sua frente, um mar de leite branco de menos de um metro quadrado, onde se podiam entrever ranhuras e treliças do tecido rugoso que formam aquilo que se convenciona chamar de “tela”. Profundo vazio bidimensional. Relegada a si mesma, imaginava campos verdes e lindas montanhas com os picos preenchidos pela neve que sempre sonhou em ver. Mergulhava infinitamente naquela quietude, onde nem o farfalhar de folhas secas podia ser ouvido. Por um segundo infinito, ela evaporou, tornou-se liquida, ecoando em seus versos particulares. Assim aprendeu a lidar com o mundo. Prostituta, perdeu a noção de quantas vezes havia abandonado a si mesma, deixando seu corpo pairando em sonhos e devaneios infindáveis. Nem dor, nem prazer, nem nojo, nem tesão. Depois de algum tempo, o sexo torna-se mecânico, um mero meio. A vergonha é suprimida pela necessidade. Christine não mentia para si: às vezes (mas só de vez em quando) sentia excitação, paixão. O desejo de ser desejada. Entregava-se ao amor de estranhos quase que como amantes há muito conhecidos. Em momentos assim, libertava-se. Sentia-se mulher. Entregava-se ao momento e perdia a noção de si e do tempo. Descuidava-se dos cuidados primários da profissão e em um lapso do acaso, ficou grávida.
Ao estalido do grito de sua própria solitude, acordou do sonho matutino. Há anos sentava ali todo o dia 22 de abril, onde, com seus traços tortos, rabiscava aquela mesma paisagem que se espraiava até os limites de sua vista.
Fazia já 25 anos, ela pensou. Olhou pela janela, viu os carros, os prédios, os passantes. Um silêncio profundo ecoava em sua mente. Um suspirar lento delineava um movimento quase imperceptível em seu corpo.
Mais uma vez sem querer, adormeceu acordada, perdida por entre um labirinto particular de pensamentos. Christine não pôde ouvir a buzina da ambulância que cruzou a rua em direção a velha catedral.
Pensava sem preucupar-se com a lógica, em cada detalhe daquela manhã de tantos anos atrás. Lembrava-se bem daquele dia: eram 13:30 da tarde. No dia anterior havia acabado de dar a luz a um menino, que chamou de Pedro, devido à chuva que caia naquela manhã. Estava só, com o filho recém nascido nos braços mamando alegremente em seu seio, o qual segurava firme com ambas as mãozinhas. Christine não sabia quem era o pai. Naqueles dias, tinha muitos clientes e estava gostando de trepar. Era jovem, e rapazes jovens se interessavam por ela. Teve o bebê em casa, com a ajuda de uma parteira vizinha sua que também era prostituta. A moça havia se tornado parteira na profissão, aprendendo também técnicas de aborto - muito úteis dadas às circunstâncias. “Ossos do ofício“ gostava ela de repetir, sem qualquer vergonha ou cerimônia. Chamava-se Maria, e Christine achava engraçado o destino daquela mulher loira oxigenada, corpulenta e nariguda (mas que ainda tinha seus encantos) que tinha o mesmo nome da Mãe de Jesus e que carregava o fardo diário de tirar e trazer tantas crianças ao mundo.
Christine era católica fervorosa desde criança. Sempre perguntava a Maria quando esta deixaria de ser parteira. Questionava-a sobre pecado, sobre a Bíblia, sobre a ira divina, sobre o Juízo Final. Maria nada respondia. Depois de seu parto, Christine nunca mais perguntou a Maria nada a respeito deste assunto, guardando para si um profundo silêncio e uma profunda vergonha. Nunca mais leu a Bíblia, nunca mais rezou o terço. Nunca mais ficou de joelhos e nunca mais beijou a mão de ninguém.
O som daquele domingo distante no tempo era um dissonante ruído de burburinhos que podiam ser ouvidos ecoando da janela vizinhas. Christine lembrava daquelas imagens e daqueles sons como se estivessem presentes no agora. O centro da cidade funcionava no movimento da capital: aos finais de semana, mudavam seus visitantes. Nos dias de semana, trabalhadores, boys, carteiros, camelôs. Nos fins de semana, o que a burguesia da cidade teima em esconder aparece: todo um submundo de excluídos a quem aquele lugar não pertence nos dias úteis. Apenas os cabeleleiros e os botecos estavam abertos: um atendia as prostitutas, que se preparavam para a noite, os outros atendiam os clientes, que circulavam aquelas ruas desde o fim da tarde.
Continuando em sua espiral interior, Christine lembrou-se de que 25 anos atrás, pegou uma folha de papel lilás que havia em sua escrivaninha, dois lápis, e borracha; colocou tudo sobre a mesa que usava de suporte para o café da manhã, e começou a desenhar o que via.
Da janela, podia observar a decadente paisagem urbana do centro da cidade: o bairro operário transformado em dormitório. Um cortiço sujo, onde a arquitetura semi-clássica da fachada contrastava com a imundice dos corredores que há muito não eram limpos. Eram apenas 9 apartamentos. Nos degraus que cobriam os três andares do Prédio, jovens transavam na calada da noite, ou consumiam baseados. Era uma avenida comum daquela parte da cidade, cobertas de fios de alta tensão, onde alguns carros iam e vinham, serpenteado por entre outros prédios decadentes e crianças peladas de barriga inchada. O prédio erguia-se na sobreloja de uma padaria (que era na verdade um boteco qualquer - e onde não se vendia pão). Mas naquele domingo, a paisagem bucólica e vazia de sentido havia despertado para Christine - que com olhos cansados, porém lúcidos, olhou o mundo como se fosse a primeira vez. Agora tinha um filho e tinha que cuidar dele.
Desenhou com esmero cada poste pássaro e rosto que via. Margeava e tentava trabalhar a luz que via, a sombra e toda sua dinâmica. Um amontoado de riscos pretos, de diversos tamanhos e grossuras cruzavam aquele papel velho. Com cuidado, e aos poucos foi finalizando aquilo que qualquer desenhista com o mínimo de técnica consideraria um tosco esboço. Para Christine, a paisagem que via e sentia materializava-se naquelas linhas tortas. Não sabia desenhar, mas caprichava em cada linha, como um Picasso ou Miquelangelo. Suava, ofegava, tremia. Com os olhos marejados, pensava no filho recém nascido por quem nutria um amor infinito e sincero. A ela, lhe agradava os traços infantis e a mão pesada. Fez uma promessa silenciosa para si. Na verdade duas. Vinte e cinco anos tinha, vinte e cinco anos se passaram. Vinte e quatro desenhos fez. E ela, ano a ano, como em uma espécie de celebração, tomava esse momento para si. No dia seguinte ao aniversário do filho, se sentava em frente a janela e desenhava com todas as forças que tinha o que via e sentia. Este seria o vigésimo - quinto. Tinha agora cinqüenta anos.
Desde aquele dia, nunca mais saiu de casa. Seu mundo era uma janela.
O apartamento mudou pouco desde então, com apenas a adição de uma mesa e um sofá cama - que lhe foi doado pelo vizinho pouco antes de morrer. Era um apartamento pequeno com um quarto e uma sala. O quarto virou o quarto do filho, e ela pouco ia lá quando não eram mais necessários seus cuidados maternos. Conhecia de cor aquele corredor estreito, da porta até a geladeira - que saia da sala, cruzava a soleira que dividia os cômodos e chegava a pequena cozinha. Também havia o banheiro que tinha porcelanas brancas que cobriam a parede só até a metade. Muitos anos depois, em seu leito de morte, Christine ainda se lembrava de cada detalhe daquele apartamento, o qual havia passado quase toda sua vida trancada: cada enfeite, cada móvel. Da maneira como a luz entrava na casa em determinadas horas do dia (e como mudava nas diferentes estações do ano). Mas não pôde se lembrar do banheiro.
Christine prometera não sair mais de casa. Abriu a porta somente para os clientes que sempre iam lá, (e para Maria, até que esta nunca mais apareceu). Logo espalhou-se a história da puta que não saía de casa: tornou-se uma espécie de fetiche, que aumentou sua clientela.
Trancava o filho a chave no quarto sempre que chegava alguém. Abria o sofá cama e trepava por míseros trocados. Sempre das 8:00 às 5:00. Nunca atendeu clientes fora deste horário. Precisava ser mãe. Nos entreatos dos clientes, lia para o filho histórias infantis ou criava jogos imaginários. Não precisava de nada que não tivesse logo a mão. O senhorio lhe cobrava o aluguel, que ela lhe pagava por um envelope que passava por debaixo da porta. Comprava comida do pequeno Mercado da frente. O português da venda, conhecendo as manias da ilustre cliente, desenvolveu com esta uma série de sinais visíveis para quando precisava comprar algumas coisas. Christine colocava uma toalha vermelha na janela e o velho Pereira já sabia o que ela queria: nada de luxo, apenas o básico - arroz, feijão, óleo, açúcar, sal, leite, macarrão, etc. Apenas o que precisava para si e para o filho. Pereira lhe enviava a mercadoria por intermédio de Bidu, seu ajudante, que sempre se masturbava pensando em Christine. Bidu era uma das poucas pessoas que conversavam com Christine nas horas em que esta não trabalhava. Quando este fez dezoito anos, ganhou dela sua descoberta no sexo, o que criou entre os dois uma espécie de companheirismo quase sem palavras, onde olhares diziam mais que frases inteiras. Bidu sempre visitava o sofá cama de Christine, e essa sempre o atendia de bom grado.
Assim, Christine viveu dia após dia. Vendo o mundo da janela de seu apartamento ou pelas poucas palavras que os clientes traziam da rua. Ano após ano. Sem televisão, sem rádio, sem jornal. Apenas Pedro e os clientes.
De volta ao presente, viu o cavalete, a tela, os pincéis. Lembrou-se do dia anterior, e da visita de um cliente novo, o qual não lembrava o nome. Estava bem vestido, de terno e gravata, usava uma barba rala e tinha certamente mais de quarenta anos. Ele entrou e nada falou, trazia um grande saco plástico cinza, que deixou logo ao lado da porta. Pediu apenas o silêncio de Christine e lhe perguntou se podia usar o tempo que tinha para ficar apenas ali, olhando-a. Christine acenou com a cabeça apontando que sim, apesar de ter se assustado com o pedido. Os dois ficaram lá, em silêncio, um de frente ao outro. Passada meia hora, o distinto senhor se levantou, fez uma reverência e lhe dá adeus. Em baixo da soleira, ainda de costas, pede para Christine aproveitar o presente. O homem vira-se, fecha a porta e vai embora.
Mesmo com a porta fechada ela consegue ouvir os passos do estranho homem descendo as escadas do prédio. Aterrorizada, Christine olhou fixamente o saco plástico cinza. Não sabia o que fazer. Pensou em jogá-lo pela janela, mas desistiu. Foi traída pela própria curiosidade. Abriu o saco e viu todo aquele material: a tela, o cavalete, as tintas, os pincéis, as misturas. Nunca havia visto nada igual. Espalhou todos os itens na mesa armou o cavalete, colocou a tela no lugar correto, e foi dormir.
Estava agora ali. A data: 22 de abril. Tinha que fazer mais um desenho. O vigésimo - quinto. Nunca havia pintado. Sempre usou o lápis. Naquele momento, todas as lembranças de seu passado tornaram-se sonhos cristalinos. Pedro dormia no quarto: ontem havia feito 25 anos. Nunca havia saído de casa. Brincava com a mãe como uma criança. Não sabia ler nem escrever.
Com a mão trêmula, Christine deu algumas pinceladas na tela em branco. Não formavam forma alguma. Lembrou-se de maneira repentina que já era uma mulher de meia idade. Lembrou-se do medo que tinha do mundo. Um pavor percorreu seu corpo, estremecendo cada um de seus músculos. Jogou tudo no chão com violência. Levantou-se e com as duas mãos, apoiou-se na janela. Lágrimas infinitas caiam de seu rosto. Buscava entender o porquê de suas promessas: porque fazer um desenho por ano? Porque nunca mais sair de casa? De repente, viu que suas razões haviam se perdido no tempo. Soterradas pelos dias que passaram, não era mais capaz de lembrar para si mesmo as razões de tudo aquilo. Percebeu que vivia uma vida sem justificativa, sem razão alguma. Olhou para todo o apartamento pequeno. Vestia um vestido azul já bem velho. Limpou o rosto com as costas das mãos. Abriu a porta da sala que dava para o corredor. Olhou pela última vez o porta do quarto do filho: suspirou triste e lhe desejou do fundo do coração que fosse feliz - não tinha coragem de se despedir. Fechou os olhos e deu um passo. Atravessou a soleira. Com um olhar firme seguiu em direção a rua. Como se fosse a primeira vez. E de fato, era.
Deixou atrás de si a porta aberta. Nunca mais soube do filho, e ele nunca mais soube dela.
No outro dia, Pedro recolheu tudo que sua mãe havia deixado. Já sabia de tudo. Remontou o cavalete, organizou as cores, observou atentamente as misturas. Fechou a porta e se sentou em frente da janela, como sua mãe há 25 anos atrás. Pedro, com lágrimas nos olhos, deu as primeiras pinceladas na tela. Cobriu os riscos disformes em vermelho da mãe. Observava atentamente a paisagem que se deitava nua a sua frente: aquela paisagem que em sua dinâmica infinita, permaneceria para sempre eterna e lhe pertencia como seu próprio sangue.

1 Comments:
Assim como o salto de Christine, eu senti um levante, um subir, lírico e belo, de qualidade indiscutível. Isso me põe novas questões quanto a mim mesmo, pois mesmo não admitindo meus amigos me põem novos parâmetros quanto o que produzirei daqui pra frente. Mais me é exigido aqui. Como a um Pedro, vamos amadurecedno, com a escolha, e com a perda da inocência. Estou ouvindo Jesu agora...não sei, a combinação me tocou, deixou as cores da melancolia mais vivas...Está noutro nível meu caro, parabéns.
soberbo.
um abraço forte.
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