Monday, July 16, 2007

O Dilema do Prisioneiro - Monróvia

Estou aqui, e me proponho a pensar no que vejo. Pensar o aqui, e o agora - este momento específico. Meu presente. O instante que me cerca. De alguma maneira, é deste modo que os filósofos assim já tentaram sintetizar o que seria este estranho ente chamado “Modernidade”. Surge assim a figura do homem, que interpreta seu próprio tempo, enquanto ator e produto de sua realidade. Foucault afirma que esta postura surge com Kant; Habermas, por sua vez, afirma que isto surgiu com Hegel. Castoriadis, de maneira mais coerente, se pergunta se Platão e Aristoteles não faziam o mesmo. Filosofias a parte, me proponho agora o “pensar”. Uma espécie de livre exercício crítico, sem cientificismos ou formalismos.
De alguma maneira, é a única coisa que sei fazer: sei ler, escrever, e pensar. Só. Não toco nenhum instrumento, não tenho habilidades técnicas, não tenho uma profissão, não pratico esporte algum. Escrevo, leio e penso. Única coisa que faço e que posso fazer, dada minhas limitações. Aliás, este é um problema, pois de alguma maneira, minha existência encontra-se assim ameaçada: sou um inútil. E a utilidade é sempre um conceito relacional: se é inútil, só se é “para determinada tarefa“ ou ainda, dentro de um determinado contexto. De uma maneira direta, ler, escrever e pensar são atividades não muito apreciadas em tempos como o nosso. Não produzo. Não transformo matéria. Não trabalho a natureza. Não crio valor. Não transporto ou comunico informações que tenham utilidade. Não auxilio qualquer tipo de ciclo virtuoso que tenha alguma contrapartida ao mercado ou o valor. Pelo contrário: me proponho a interjeição - e de alguma maneira, esta é minha vontade e minha única capacidade. Se a utilidade é a medida do valor, não tenho, desta perspectiva, valor algum - se esta é a medida da verdade, sou uma mentira.
O problema é: pensar faz sofrer - não saber é melhor que saber (ou achar que sabe, ou pior, buscar o impossível saber): ao menos nos deixaria mais felizes. De alguma maneira, se pensamos nos defrontamos com o incomodo: com o que não se encaixa. Com o absurdo de um existir que nos traz atrocidades embaladas em um celofane fosco da vida mundana. A vida nua, que se torna insignificante. Pensar a realidade é pensar problemas. Se não pensamos, vivemos apenas para realizar nossas vontades intempestivas e prazeres urgentes. Porém a pausa e o raciocínio sugerem questões que deveriam permanecer no limbo da mediocridade: Por quê? Para que? Para quem? A crítica provoca a desordem, e por esta razão, não é saudável para o mantenimento de um Status Quo, que caracterizamos miticamente com a palavra “Sistema“. A crítica desestabiliza o mítico Sistema.
Desordenar é trazer a incerteza, é não pré-estabelecer o fim ou o começo. É destruir a pré-concepção do condicional: a causa - o efeito - ou ainda, o efeito como conseqüência dada e preestabelecida da causa. É pressupor que nada nos guia, que a responsabilidade por nosso destino, por nossa realidade é apenas nossa, individual, e ao mesmo tempo, coletiva. A existência como o resultado da dialética das escolhas, das contradições entre os seres, das vontades conflitantes que propõem um projeto político. A crítica ao progresso torna o futuro incerto e não previsível: retira o caráter da metafísica de um norte histórico bem delimitado - tanto em sua base divina, como em sua base histórico-materialista. Aqui não há heróis ou vilões. Pensar, de maneira crítica e independente é uma postura (ou seria uma incompostura?), uma atitude ética. A crítica pressupõe escolha moral, vontade.
Do alto desta janela, vejo um mundo doente. Que por caminhos desconexos, alcança a todos e uniformiza as almas. Hoje, o homem Ocidental (que pode, porque não, estar também no Oriente) é nada mais que um autômato, um repetidor de estímulos. Alguém que acorda, trabalha e dorme: e entre atos, consome o que puder (e o que não puder): e deste modo, realiza-se assim, individuo, em uma individualidade fútil. Na verdade, o individuo hoje já não está mais condicionado a seu status de individualidade por sua unicidade sócio-existential-intelectual: hoje, se é um individuo por sua exclusividade - no que se compra, no que se tem acesso, no que se consome. Se não, se é massa - esta por sua vez, objeto disforme, amorfo.
Engraçada é, por sua vez, a transformação da idéia de “consumo de massa“. No período inicial do Capitalismo, era função da industrialização a criação de um “mercado de massa” (por isso também o processo de libertação dos escravos - que libertos seriam simultaneamente braços e carteiras). O capitalismo industrial que marca a Europa no século XVIII e século XIX é baseado na noção da massificação da produção. A própria idéia de Revolução Industrial presume a capacidade social de se produzir virtualmente tudo o que se tem capacidade técnica, de maneira infinita. O paradigma atual é sua contra corrente, ou melhor, a revisão do próprio capitalismo: o consumo torna-se cada vez mais individual (ou individualizado), na medida em individualiza aquele que tem acesso ao consumo não massificado - aquele que é específico, que marca em si o pertence a um grupo ou classe. Na verdade, o que importa o produto ao capitalismo atual, que cada vez mais se reproduz por si, através de valores não mais tangíveis em forma material. O capitalismo atual subverteu a noção de valor de uso - hoje, os produtos não têm mais valor de uso algum: podem ser adquiridos ao infinito. O mundo de hoje é doente em sua essência, por ter-se permitido realizar o que se propôs: em seu modelo, tornar-se hegemônico.
Palavrinha mágica esta: a hegemonia não está ligada, como muitos pensam, em uma imposição via poder coercitivo - a hegemonia é antes de tudo, o advento da inconquistabilidade, da legitimidade de uma ordem. A sociedade contemporânea ocidental pode-se hoje caracterizar hegemônica. Em seu seio, a falta de um projeto, de uma alternativa, ou de propostas de mudança baseadas em escolhas éticas, em valores políticos - situação esta muito recente. Hoje, a história parece estar estagnada, porque assim a deixamos. De alguma maneira, o modelo de Hegel ainda é o vencedor: a História é um ente, que se realiza em diferentes momentos, rumo a uma idéia universal de progresso. O momento é o agora, e a racionalidade é nossa deusa. A chave que nos faz compreender o mundo é a chave da razão como forma e efeito do absoluto. A moral está assim condicionada a sua utilidade: o que é bom é valido e é útil; o que é inútil é amoral e não valido. A política torna-se assim função.
Porém, o que apontam as vanguardas atuais no que tangem a situação e condições atuais da sociedade. Se tomarmos o meio acadêmico como paradigma da vanguarda, encontramos o Pós Modernismo e o culturalismo como as chaves da moda. Neste sentido, abandonam-se os problemas clássicos: a política, o trabalho, a guerra, a produção. O foco situa-se em outra direção: em festas, em mídias, na arte. Porém serão estes os problemas: ou ainda, as respostas a nossas questões sociais mais fundamentais poderão vir daí? A resposta Pós Moderna é a negação da diferença: a relativização das questões políticas - a relativização da existência e da moral. Neste sentido, não cabe mais os caminhos tradicionais: pois não há verdade, não há o certo, ou o errado - o que existe é plural e complexo, portanto, diante disso, somos impotentes.
O Pós Modernismo abdica da escolha. O homem perdeu o espaço público do debate. A política torna-se antiética: (a esquerda chega ao poder, e é criticada pela direita, por fazer o contrário do que disse que faria, e portanto, continua o projeto da mesma direita). A política perdeu seu lugar, pois o homem não faz mais escolhas morais. Estamos em um processo de anemia moral e perda da autonomia
Cabe aqui pensarmos sobre o saber: o saber e sua produção não devem enxergar o futuro amarrando-o a um projeto fechado e coeso, ou ainda, fazer previsões certeiras. O saber deve buscar nas condições postas as potencialidades de um devir. Deste modo nos é entregue o poder da mudança. Conhecer as potencialidades do futuro permite que o transformemos. Daí, a capacidade de intervenção. Ao conhecer, mudamos a nós e a nossa realidade. Neste sentido, a crítica é em si sempre abstrata, mas traz também em si, exatamente em sua abstração, a capacidade da mudança.
Porém, um paradoxo assim se anuncia: se assim a situação nos apresenta, e se acaso é desta poderia funcionar o processo do saber, como podemos conceber tal anemia moral e intelectual? Como podemos afirmar que o homem de hoje perdeu a capacidade de pensar sobre si através de uma perspectiva transformadora? Concebo-a assim, pois acredito que homem de hoje, em grande medida, abdicou de pensar em termos de responsabilidade.
O modelo vencedor, o mítico Sistema estabelecido no mundo Ocidental, é resultado de dois processos simultâneos: De um lado, o paradigma econômico imposto pela Revolução Industrial, e do outro, o paradigma político da Revolução Francesa, através da consolidação de um governo movido pela Razão e regulado entre indivíduos juridicamente iguais. Estes dois processos formam uma conjuntura única, que os historiadores caracterizam como Revolução Burguesa. Assim, política e economia se encontram, e propõe um modelo organizacional universal. Porém uma ressalva aqui deve ser feita: este processo em si, além de consolidar de uma ordem, gerou um outro resultado: o desenvolvimento da capacidade crítica desta mesma realidade que neste momento, se consolida. O periodo conhecido como “Modernidade” é caracterizada por este antagonismo: modelo e contra-modelo, ordem e revolução, capitalismo e socialismo, ser e dever ser - juntos, em uma mesma realidade. O “Sistema” deste modo contém em si as possibilidades de sua renovação.
Porém, em algum momento, este conflito cessa. E desta maneira, condicionamos nossa existência: o que nos sobra hoje é uma ausência de devir, a falta do ser, uma letargia paralisada.
A sociedade que vivemos hoje abandonou o conflito, abandonou a política. Os arautos da Pós Modernidade apontam para o mundo da inclusão, da não divisão, do ecletismo. Apontam que somar a diferença torna-se a regra, pois só assim seremos capazes de compreender a complexidade do mundo. Como estes, também não aceito as generalizações quanto a moral, ou quanto a uma indefinível fé no progresso. Porém me questiono: onde está a proposta de um modelo alternativo, não em seu sentido concreto, mas apenas a proposta de uma nova maneira de ver a política, de conceber o poder, de se inserir enquanto ser social? Onde estará a consciência política transformadora (que varreu o ocidente com revoluções, guerras, motins) que toma para si a realidade e busca sua mudança, em seu caráter mais profundo e mais individual - que busque a emancipação? O discurso da polifonia absoluta é o discurso da anemia moral. De alguma maneira, a sociedade entregou os pontos, onde agora o que vale é um ideal de projeto pessoal infinitesimal, baseada em um calculo de meios e fins infinito, que se torna amplo geral e irrestrito.
A anemia vigora, pois abdicamos de pensar politicamente; e com isto quero dizer que abdicamos de nossas escolhas pautadas em um projeto. O discurso inclusivo irrestrito é servil a lógica dominante, pois não a critica: pelo contrário, a absorve e a reproduz.

Foto: Soldado Liberiano na Segunda Guerra Civil da Libéria de 1999 a 2003. Carolyn Cole, 2003. Pulitzer: ainda me pergunto sobre sua idade.

Guerra civil que deixou centenas de milhares de mortos, e outro tanto de refugiados. A Libéria foi em seu início, um país fundado por escravos libertos dos Estados Unidos. Houveram 2 Guerras Civis, em meio a pobreza e miséria de seu povo. O mundo prefiriu deixar pra lá e olhar para o outro lado, como se nada fosse. Hoje, o país está totalmente destruido e sem qualquer infra-estrutura, com epidemias e fome. Dezenas de crianças morrem todos os dias.


Para um contraponto:

“De Meus Muitos Eus”, autor: Marcelo Fonseca

http://lovediebornagain.blogspot.com

3 Comments:

At 5:15 PM , Blogger Marcelo Fonseca said...

Antigamente o conceito de universidade era atrelado ao homem universal. Depois se recobriu da pompa de ser a fase onde meninos torna-se homens. Outro dia numa aula (das poucas que este vagabundo assistiu), alguem falou lá pelas tantas, que se aprende as vezes muito mais indo no bar. Se estao errados, vá saber. O banco é só uma consolidaçao de outras parcerias que estão por vir, e nao só o banco, o caminho do metrô, Futurama, café, um boa conversa sempre ventila as sinapses. Estamos aí.

cada vez mais roucos e surdos.
abraço.

 
At 7:41 PM , Anonymous Thiago Cutovoi said...

De vez em quando é bom passar por aqui para absorver algo. Brilhante.

-TC-

 
At 4:49 AM , Blogger Projeto Sapiens Demens said...

Esse texto realmente é animal, talvez se relacione com o texto que eu publicarei em breve no Sapiens Demens, sobre "O fim do intelectual".

Abraços parceiro!

 

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