Monday, August 13, 2007

Devoção

"Eis qua a voz de teu irmão clama por mim desde a terra" (Gen, 3 - 10)

O gato o olhava a mais ou menos uma hora e meia. Seus olhos amendoados fitavam aquela figura inerte prostrada naquela cadeira diante da janela. O fim de uma noite fria e chuvosa ardia do lado de fora, iluminada por lampejos que cruzavam o céu como cicatrizes que se desmanchavam no ar. Como em um sonho distante, lembrava-se de momentos da tarde do dia anterior. Lembrou-se do por do Sol vermelho sangue que viu por entre os prédios cinza-chumbo. Lembrou-se de como puxava o ar pausadamente para dentro dos pulmões, prestando cuidadosa atenção em todos os movimentos de seu diafragma. Lembrou-se de como não pensava em nada: seus pensamentos estavam no vazio. Sua mente era engolida em um halo infinito. Não havia com que se preocupar. Os trovões estavam distantes.
O tempo passava na noite que caia. As estrelas no céu se moviam, em seu balé noturno.
Mas neste momento, estas eram memórias distantes. O dia anterior estava a longos anos de distância deste agora. Algo como que perdido em tempos imemoriais. Não existiam mais medias. Não sabia porque. Agora, estava alí, sentado, imóvel. A profunda noite já quase se tornava dia. O tormento da insônia começava a evanescer com os primeiros raios do crepúsculo que pareciam já querer romper as espessas nuvens carregadas. A chuva finalmente parecia querer cessar. De olhos abertos, absorvia o ódio que surgiu em seu peito como que se marcado a ferro quente. "A culpa é de tudo e todos", pensava de maneira repetitiva, maneira quase tântrica. Dizia em silêncio a sí mesmo, quase como que querendo se convencer. Na verdade, era isso que buscava. Uma razão. Apenas. Pensou a noite toda na tentativa de encontrar a razão do ódio. Burrice. A insônia e o tormento caminham de mãos dadas. Sexta feira. As nuvens que não se dissipam anunciam um dia triste. O quarto é pequeno e escuro. O silêncio pesa. O único ruído intermitente é o da chuva que golpeava a janela, e que agora não mais se ouve. Continuava sentado. Costas arqueadas. Os pés juntos. Não passa sequer um carro na rua – “deve ainda ser muito cedo”, pensou. Em uma espiral inconsciente, vê o mundo em vermelho. Um respiro fundo. Sente dor, mas não se importa. Abre os olhos e, como num lampejo, um devaneio cinzento. Sim. Um único pensamento. Seu corpo estremece de cima a baixo. Sente náusea. Uma gota de suor desce de sua testa e repousa no lábio. Um gosto agridoce que lhe invade a boca. O sangue lhe brota nas mãos. Havia renegado aquele pensamento a noite toda. Travava uma luta de morte consigo mesmo. Mas agora isto lhe era impossível. Estava cansado. Uma espécie de redenção. Não queria mais sentir dor. Um gosto torpe lhe desce a garganta, para então se alojar no estomago.
Já havia refeito mentalmente aquele caminho diversas vezes, até a casa do irmão. Tentou mais uma vez: descer pela rua R. até a N. e descer em direção ao teatro - são poucas quadras. Cruzar a estação do metrô pelo subterrâneo. Chegar a D. e seguir em frente. O prédio rosado de frente a praça. Lembrou-se bem da porta, com seus velhos detalhes em madeira. Agora as memórias lhe vinham claras e límpidas. Em sua imaginação, viu bem a maçaneta bronze. Ouviu o ranger da porta ao abrí-la. São três lances de escada. Viu o sinal na porta: 3C. A porta se abre sem barulho. Ele nunca tranca a porta.

De volta ao quarto escuro. Ergue um pouco a cabeça em direção a janela. Observa o asfalto molhado lá em baixo refletir o colorido do postes de luz e do néon das lojas. Sons e vozes repetidas. Sente um chamado do dever. Sim! Um dever, era isso! Aos poucos, desistiu de compreender. “Um dever, claro”, repetiu baixinho para si mesmo. Mais forte que a vontade. Era isso. Não há significado no dever. Não há moral. Não agüentava mais os vermes que o devoravam por dentro. Olhou para a janela, e viu que um raio de luz invadia timidamente o quarto. Um barulho de sirene. “Os pombos”, pensou.
Subitamente se levantou. Meteu os sapatos dentro dos pés descalços. Pega algo que havia jogado no chão e mete no bolso fundo do casaco. Abriu a porta e saiu sem fechá-la.
O gato saiu por alí, para nunca mais voltar.
Nas ruas da cidade que acordava, o mundo parecia vazio. Nem percebeu se alguém cruzara seu caminho. O gorro da jaqueta deixava mais da metade de seu rosto coberto. Era agora um homem irreconhecível: seu rosto deformara-se como se tomado pela cólera. Caminhava em direção a casa do irmão a passos largos. Descia as ruas sem olhar para os lados. Seus pés deixavam marcas na calçada molhada. A chuva caia muito fina, quase invisível, mas ainda assim lhe molhava o cabelo. Longos fios pretos lhe caiam na fronte, e lhe tapavam os olhos negros.
Chegou à estação do metrô. Olhou para ela, e imediatamente reconheceu todos os detalhes. Durante a noite anterior, esta imagem lhe povoou a imaginação. Deu um suspiro longo e seguiu. Seu corpo caminhava como se empurrado por seu espírito. Para ele, já não existia mais o tempo - os relógios haviam parado. Caminhava sublime. Sem culpa. Caminhava em direção a liberdade. O despertar da alma. A cada passo, diminuia-lhe o peso.
Os primeiros raios da manhã faziam brilhar as poças d água que haviam se formado durante a chuva. Há pouco deixara a estação do metro. Inclinou seu rosto para trás. O dia ainda não nasceu, mas não é mais noite - o sol e a lua estão ao mesmo tempo no céu agora. Dá um sorriso a si mesmo. Uma gargalhada rompe o silencio da manhã.
Chega a rua D. Atravessa a longa avenida, e então a grande praça. Observou atentamente a estátua que está ali sentada na fonte. Mármore branco. Olhou seu braço, suas formas. Sentada, a figura segura em uma de suas mãos um jarro. O fio de água forma uma espécie de arco na paisagem. Com seu corpo, sustenta toda a estrutura. No alto, uma última figura encerra a composição. A mulher que representa a justiça: sua espada e sua balança. Os olhos vendados. Pensamentos que se sucedem em questão de segundos. O prédio de fachada rosada está logo ali. Não há mais ninguém: o mundo silenciava. Tudo se foi. Não a mais nada a temer. Não há mais dor alguma. Entrou pela porta. Como um anjo caído, caminhava misturando-se à sombra. Seu semblante era altivo. Fixou os olhos no elevador velho que estava ali no hall. Duro como rocha. Apertou o botão. A porta não se abriu. Virou-se. Sem pestanejar, subiu as escadas em forma de caracol. Três lances. Subia lentamente. Por um momento, vislumbrou o que tanto desejava: o significado de toda uma vida: mas não o compreendeu. Não podia. Não poderia explicá-lo. Como que se visse a si mesmo coroado. Como se asfixiá-se a si mesmo com um travesseiro. Uma morte lenta. Uma dor prazerosa. Um gozo de tensão.
Sentiu-se instrumento. Um mergulho completo no âmago de sua consciência. Com a retina dilatada, viu a porta 3C.
Abriu a porta. Viu a figura deitada em seu sono calmo e tranqüilo. Não era inveja. Não era ódio. Seu coração encheu-se de ternura. Uma devoção quase que sagrada. O quarto era pequeno. A atmosfera era calma. Sentiu cheiro de jasmim. Uma vela iluminava o rosto virtuoso.

“Caim atirou-se sobre seu irmão e matou-o”

Culpa. A redenção tornou-se imediatamente culpa. O sangue escorre por entre seus pés. De relance, enxerga os olhos do irmão, que fitam o nada com uma expressão de medo. As lágrimas escorrem-lhe na face. A eterna vingança. Seu corpo torna-se chumbo. Respirar-lhe é insuportável. Cai de joelhos. Leva a mão ensangüentada a face. Chorou aos soluços, em êxtase e medo. Não podia dizer uma palavra.
Um grito fundo ecoa na manhã úmida. A cidade não acorda para ouvi-lo. O orvalho da manhã embaça as janelas do quarto. Sem se virar, caminha de costas em direção a porta. Deixa o cômodo de seu irmão. O corpo jaz ali, estirado na cama. Lençóis em vermelho. Sinal da violação. O crime.

Com o vento, sai do prédio. Passa pela porta grande e velha de madeira. Olha para a esquerda, e depois para a direita. Queria neste momento dar fim a própria vida. Sim, este seria o único jeito. Tira o longo punhal ensangüentado do casaco. A lamina brilhou ao toque da luz do sol da manhã. À noite o havia finalmente abandonado. A chuva havia se transformado em uma paz melancólica. A cidade ao acorda e segue com seus afazeres. Agora sim, pode dormir tranqüilo.
Com a ponta afiada do punhal, traça um corte que vai da têmpora lábio do lado esquerdo de seu rosto. O sangue lhe chega à boca. Sente o gosto doce e cospe no chão sujo. Na manhã vazia, caminha uma sombra.

Pintura: Caim e Abel, por Ticiano

Texto originalmente produzido para Apes! n. 1. Retirado de lá por desgosto, colocado aqui por teimosia.

2 Comments:

At 7:37 PM , Blogger Marcelo Fonseca said...

O texto da virada...o texto do salto. muitos a cada tempo, sinto isso em n�s parceiro. e agora que a revista se poe a andar me pego cercado de incertezas e muitas cobran�as. oq resta fazer � lembrar o prazer de compor, criar, rabiscar e mandar a merda a (auto)critica exacerbada.

que venha mais.
abra�o

 
At 7:58 PM , Blogger V For Vendetta said...

Foda demais....

"E Caim Atirou-se sobre teu irmão e matou-o"


foda³

 

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