Devoção
"Eis qua a voz de teu irmão clama por mim desde a terra" (Gen, 3 - 10)
O tempo passava na noite que caia. As estrelas no céu se moviam, em seu balé noturno.
Mas neste momento, estas eram memórias distantes. O dia anterior estava a longos anos de distância deste agora. Algo como que perdido em tempos imemoriais. Não existiam mais medias. Não sabia porque. Agora, estava alí, sentado, imóvel. A profunda noite já quase se tornava dia. O tormento da insônia começava a evanescer com os primeiros raios do crepúsculo que pareciam já querer romper as espessas nuvens carregadas. A chuva finalmente parecia querer cessar. De olhos abertos, absorvia o ódio que surgiu em seu peito como que se marcado a ferro quente. "A culpa é de tudo e todos", pensava de maneira repetitiva, maneira quase tântrica. Dizia em silêncio a sí mesmo, quase como que querendo se convencer. Na verdade, era isso que buscava. Uma razão. Apenas. Pensou a noite toda na tentativa de encontrar a razão do ódio. Burrice. A insônia e o tormento caminham de mãos dadas. Sexta feira. As nuvens que não se dissipam anunciam um dia triste. O quarto é pequeno e escuro. O silêncio pesa. O único ruído intermitente é o da chuva que golpeava a janela, e que agora não mais se ouve. Continuava sentado. Costas arqueadas. Os pés juntos. Não passa sequer um carro na rua – “deve ainda ser muito cedo”, pensou. Em uma espiral inconsciente, vê o mundo
Já havia refeito mentalmente aquele caminho diversas vezes, até a casa do irmão. Tentou mais uma vez: descer pela rua R. até a N. e descer em direção ao teatro - são poucas quadras. Cruzar a estação do metrô pelo subterrâneo. Chegar a D. e seguir
Subitamente se levantou. Meteu os sapatos dentro dos pés descalços. Pega algo que havia jogado no chão e mete no bolso fundo do casaco. Abriu a porta e saiu sem fechá-la.
O gato saiu por alí, para nunca mais voltar.
Nas ruas da cidade que acordava, o mundo parecia vazio. Nem percebeu se alguém cruzara seu caminho. O gorro da jaqueta deixava mais da metade de seu rosto coberto. Era agora um homem irreconhecível: seu rosto deformara-se como se tomado pela cólera. Caminhava em direção a casa do irmão a passos largos. Descia as ruas sem olhar para os lados. Seus pés deixavam marcas na calçada molhada. A chuva caia muito fina, quase invisível, mas ainda assim lhe molhava o cabelo. Longos fios pretos lhe caiam na fronte, e lhe tapavam os olhos negros.
Chegou à estação do metrô. Olhou para ela, e imediatamente reconheceu todos os detalhes. Durante a noite anterior, esta imagem lhe povoou a imaginação. Deu um suspiro longo e seguiu. Seu corpo caminhava como se empurrado por seu espírito. Para ele, já não existia mais o tempo - os relógios haviam parado. Caminhava sublime. Sem culpa. Caminhava em direção a liberdade. O despertar da alma. A cada passo, diminuia-lhe o peso.
Os primeiros raios da manhã faziam brilhar as poças d água que haviam se formado durante a chuva. Há pouco deixara a estação do metro. Inclinou seu rosto para trás. O dia ainda não nasceu, mas não é mais noite - o sol e a lua estão ao mesmo tempo no céu agora. Dá um sorriso a si mesmo. Uma gargalhada rompe o silencio da manhã.
Chega a rua D. Atravessa a longa avenida, e então a grande praça. Observou atentamente a estátua que está ali sentada na fonte. Mármore branco. Olhou seu braço, suas formas. Sentada, a figura segura em uma de suas mãos um jarro. O fio de água forma uma espécie de arco na paisagem. Com seu corpo, sustenta toda a estrutura. No alto, uma última figura encerra a composição. A mulher que representa a justiça: sua espada e sua balança. Os olhos vendados. Pensamentos que se sucedem em questão de segundos. O prédio de fachada rosada está logo ali. Não há mais ninguém: o mundo silenciava. Tudo se foi. Não a mais nada a temer. Não há mais dor alguma. Entrou pela porta. Como um anjo caído, caminhava misturando-se à sombra. Seu semblante era altivo. Fixou os olhos no elevador velho que estava ali no hall. Duro como rocha. Apertou o botão. A porta não se abriu. Virou-se. Sem pestanejar, subiu as escadas em forma de caracol. Três lances. Subia lentamente. Por um momento, vislumbrou o que tanto desejava: o significado de toda uma vida: mas não o compreendeu. Não podia. Não poderia explicá-lo. Como que se visse a si mesmo coroado. Como se asfixiá-se a si mesmo com um travesseiro. Uma morte lenta. Uma dor prazerosa. Um gozo de tensão.
Sentiu-se instrumento. Um mergulho completo no âmago de sua consciência. Com a retina dilatada, viu a porta 3C.
Abriu a porta. Viu a figura deitada em seu sono calmo e tranqüilo. Não era inveja. Não era ódio. Seu coração encheu-se de ternura. Uma devoção quase que sagrada. O quarto era pequeno. A atmosfera era calma. Sentiu cheiro de jasmim. Uma vela iluminava o rosto virtuoso.
“Caim atirou-se sobre seu irmão e matou-o”
Culpa. A redenção tornou-se imediatamente culpa. O sangue escorre por entre seus pés. De relance, enxerga os olhos do irmão, que fitam o nada com uma expressão de medo. As lágrimas escorrem-lhe na face. A eterna vingança. Seu corpo torna-se chumbo. Respirar-lhe é insuportável. Cai de joelhos. Leva a mão ensangüentada a face. Chorou aos soluços, em êxtase e medo. Não podia dizer uma palavra.
Um grito fundo ecoa na manhã úmida. A cidade não acorda para ouvi-lo. O orvalho da manhã embaça as janelas do quarto. Sem se virar, caminha de costas em direção a porta. Deixa o cômodo de seu irmão. O corpo jaz ali, estirado na cama. Lençóis
Com o vento, sai do prédio. Passa pela porta grande e velha de madeira. Olha para a esquerda, e depois para a direita. Queria neste momento dar fim a própria vida. Sim, este seria o único jeito. Tira o longo punhal ensangüentado do casaco. A lamina brilhou ao toque da luz do sol da manhã. À noite o havia finalmente abandonado. A chuva havia se transformado em uma paz melancólica. A cidade ao acorda e segue com seus afazeres. Agora sim, pode dormir tranqüilo.
Com a ponta afiada do punhal, traça um corte que vai da têmpora lábio do lado esquerdo de seu rosto. O sangue lhe chega à boca. Sente o gosto doce e cospe no chão sujo. Na manhã vazia, caminha uma sombra.
Pintura: Caim e Abel, por Ticiano
Texto originalmente produzido para Apes! n. 1. Retirado de lá por desgosto, colocado aqui por teimosia.

2 Comments:
O texto da virada...o texto do salto. muitos a cada tempo, sinto isso em n�s parceiro. e agora que a revista se poe a andar me pego cercado de incertezas e muitas cobran�as. oq resta fazer � lembrar o prazer de compor, criar, rabiscar e mandar a merda a (auto)critica exacerbada.
que venha mais.
abra�o
Foda demais....
"E Caim Atirou-se sobre teu irmão e matou-o"
foda³
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