Sunday, September 23, 2007

Tragédia em dois atos: Ato 1 - A noiva

Era tarde. Passava da uma da manhã. Beatriz olhou no relógio pequeno que a irmã lhe dera na noite de natal. Preocupada, pensou: “Será que o ônibus ainda passa essa hora?”.
Esperando o ônibus na madrugada vazia, lembrou-se da noite de ano novo: os fogos de artifício, as crianças, os amigos. Foi aquela a última vez que o viu. Chegou em casa aos gritos. Recolheu tudo que lhe importava naquela hora: os documentos, três mudas de roupa, seu terço, e uma blusa – fazia frio. A filha já estava com a mãe. Não podia mais viver ali. O ar daquela casa era lha pesava nas costas. Não podia mais viver com Oswaldo. Não agüentava mais. Na noite de ano novo, ele encasquetou com Mário, o vizinho. Mário era um rapaz bonito, 25 anos, negro de olhos verdes. Era office-boy da gráfica do bairro. As vizinhas solteironas e as jovens meninas pensavam muito nele em momentos de intimidade solitária durante o banho. Ele tinha mania de lavar o carro de pai de shorts amarelo. Ficava transparente com a água que lhe respingava no corpo. Na noite de ano novo, Mário ofereceu uma taça de espumante a Beatriz. Sorriso no rosto e um cigarro na mão esquerda. Estava bonito, de roupa social; bem alinhado. Era quase meia noite. Os fogos de artifício iluminavam o céu da cidade. Beatriz já tinha tomado alguns copos a mais. Aceitou e bebida e retribuiu o sorriso: deu uma golada na taça e se virou. Já era tarde: de repente um estrondo. Oswaldo, sem pestanejar, esmurrou a cara de Mário, que não teve nem chance de desviar. Caiu por cima da mesa e foi para o chão. De repente, o silêncio. Com o nariz quebrado, Mário levantou-se: olhou para Oswaldo, cuspiu no chão e passou a manga da camisa de linho na boca. O sangue escorria-lhe pelo canto da boca, misturado a saliva. O festejo parou. Mário olhou para o céu estrelado, deu um grito alto e disse:

“Festa minha gente! Embora que amanhã é feriado!”

Mário virou as costas e sumiu com uma garrafa de cachaça debaixo do braço. Oswaldo olhou fundo nos olhos de Beatriz e agarrou-lhe pelo braço. O que veio a seguir foi uma seção interminável de xingamentos, gritos e choros. Beatriz logo saiu da festa, foi para sua casa: ficava logo na rua de baixo. Juntou suas coisas e correu pra casa da mãe. Pegou o primeiro Táxi que viu na avenida vazia.

“Hoje é dia 22 de fevereiro”, Beatriz pensou. Dês do último dia do ano, não via Oswaldo. Ele também não procurou saber da filha. No ponto de ônibus, por um instante, lembrou-se que já foi feliz. Quando noiva, Oswaldo lhe levou para jantar em lugar chique. Foi lá que Oswaldo a pediu em casamento. Lembrou-se que beberam uma taça de vinho cada e comeram o que havia de melhor. Saíram de lá felizes, andando abraçados ela na calçada, ele no meio fio. Era madrugada e fizeram amor dentro do carro estacionado na praça. Dois meses depois se casaram. Beatriz já estava grávida, mas só teve certeza no mês seguinte ao casamento. Vivia um conto de fadas. Chorava ao ver as fotos do casamento – e as via todas as noites. Chamou a menina de Catharina, pois este era o nome da irmã mais nova de Oswaldo. Beatriz tinha 19 anos. Largou o emprego para ser mãe tempo integral. Passaram se os meses, e as despesas aumentaram. Decidiu voltar a trabalhar, mas Oswaldo proibiu. Beatriz já sabia do lado machista do marido. Ele lhe contava com orgulho as histórias de como escorraçava cada um dos namorados da irmã, um a um. Contou-lhe que chegou a espancar um, depois que o rapaz havia beijado a irmã na boca em um jantar de família. Oswaldo não perdoou. O rapaz se despediu da irmã no portão. Como todo casal jovem e apaixonado, os namorados se demoraram no adeus. Quando finalmente se separaram, o namorado da irmã apertou o passo em direção à esquina para pegar o ônibus que passava ali. Era um domingo e haviam acabado de voltar do culto. Oswaldo pulou a janela de casa, e sem ninguém ver, seguiu o pobre. Quando chegou ao ponto, lhe meteu um pedaço de pau na parte de trás na cabeça, e seguiu com chutes no estomago: ainda gritava: “Filho da Puta! Pra você respeitar casa de família e nunca mais beijar ninguém com essa boca imunda! Vou lhe arrancar os dentes!” Ao fim, o menino ficou lá a madrugada toda. Catherine nunca mais o viu, nem nunca mais soube dele. Nunca soube do que o irmão fizera.
Na época, Beatriz ouvia as histórias e ria baixinho. Coisas de menina boba.

Um belo dia, ela arrumou emprego em uma padaria longe de casa. Não podiam mais pagar as contas. Teimosa, Beatriz aceitou o trabalho a contra gosto do marido. Acordava bem cedo para chegar lá antes do estabelecimento abrir. Todas as manhãs fazia dois pães na chapa e passava o café: deixava tudo pronto para Oswaldo. Saia de casa as 3:30 e andava meia hora até chegar a estação de trem. De lá, mais 40 minutos em pé no vagão. Descia na estação e andava mais vinte minutos. Todos os dias, por três meses. O dono da padaria gostava de Beatriz. Trabalhadeira, atendia os clientes com esmero. Na periferia, padaria é ponto de encontro dos bêbados do bairro, que esperam do lado de fora a porta de metal ser erguida para tomarem a primeira talagada do dia. Beatriz agüentava todas as cantadas daqueles homens imundos, que quase não se agüentavam de pé. Todos os dias. Sorria, servia, limpava.
Ainda as contas não fechavam, decidiu deixar a filha com a mãe. Trabalhava demais, não estava podendo cuidar da filha. O marido nem soube da decisão de Beatriz, e também não perguntou da filha. Oswaldo começou a ficar cada vez mais distante. Passou a não vir pra casa. Às vezes, dormia na soleira da porta, bêbado feito um gambá. Mesmo assim, todos os dias, Beatriz lhe preparava o café. Pouco tempo depois, houve a cena do ano novo, e por fim, a separação.
Beatriz agora morava com a mãe. Largara o emprego na padaria, e conseguiu um emprego no Shopping, em uma loja de roupas para adolescentes ricas. Estava feliz. Trabalhava menos e vivia com a filha e a mãe. Há poucos dias, a dona da loja lhe perguntou se poderia ficar ali depois do expediente, limpando o lugar e organizando as roupas. Isso lhe renderia um bom extra. Aceitou. Trabalhou mais naquela noite, pegou seu extra e pensou em dar uma boneca nova para a filha, de presente de aniversário atrasado. Era mais de meia noite quando saiu do Shopping.

Esperando o ônibus, já a mais de meia hora, decidiu sentar no meio fio. Estava cansada. De repente, um carro encosta devagar e gentilmente buzina. Beatriz olha. Mario dá um sorriso e um aceno. Beatriz logo reconhece o rosto e se chega à janela do carro. Mário pergunta se ele pode lhe dar uma carona: Beatriz aceita de bom grado.
Também não via Mário dês do dia de ano novo. Conversavam alegremente sobre assuntos banais. De repente, Beatriz se lembra da cena da noite de ano novo, da briga, de tudo. Abaixa a cabeça envergonhada. Mário lhe levanta o queixo com os dedos: ela deixa uma lágrima lhe escorrer no rosto. Já haviam chegado à casa da mãe de Beatriz. Ele lhe coloca a mão na face e lhe dá um beijo no rosto. Beatriz estremece e lhe coloca a mão na nuca. Se beijam com desejo. Num susto, Beatriz, se afasta e abre a porta do carro. Olha para dentro e Mario lhe olha nos olhos de volta.

“Você pode me pegar amanhã de novo?” ela diz.

“Claro”

Ela se vira e corre pra dentro de casa, feliz de não saber quanto.

No outro dia. Beatriz se levantou, tomou um banho demorado e colocou sua melhor roupa. Deu um beijo na filha e foi para a cozinha tomar seu café. Conversou alegremente com a mãe, fez piadas sobre as notícias que ouvia no rádio e sorriu. A mãe estranhou a felicidade da filha, que andava tão triste já há algum tempo; mas resolveu não perguntar. Beatriz pegou suas coisas e se preparou para sair. Na soleira da porta, diz para a mãe ter um bom dia, e avisou que ia chegar em casa mais tarde.
Chegou à loja cedo e faz todas as tarefas matinas. Organizou as roupas, fez um pequeno relatório de todas as vendas da semana. Passou um café fresco. Havia comprado biscoito no caminho. Estava feliz. Pensou em Mário e estremeceu. Estava ansiosa: um frio na barriga que não sentia há muito tempo - e ainda tinha que esperar até a noite. Lembrou-se da boneca da filha. Pensou em passar na loja de brinquedos na hora do almoço. A alguns dias, viu uma boneca linda que vira na vitrine com um bonito vestido azul. Sorriu para si mesma. Bebeu um gole de café e comeu um naco de biscoito.
As 10:00 em ponto, abriu as portas da loja. O shopping estava vazio ainda. Sentou atrás da bancada e por alguns segundos olhou para baixo: viu seu sapato roxo.
Quando levantou a cabeça, Oswaldo estava dentro da loja. Olhou o marido com estranheza. Nunca vira aquela expressão no seu rosto. Um silêncio mudo fazia da atmosfera algo pesado demais. O ar era irrespirável. Pensou em gritar, mas só consegui balbuciar o nome do marido:

“Oswaldo?”

Ele saca um revolver da cintura. Engatilha e faz pontaria.
Um tiro seco.
Beatriz cai para trás. A mancha de sangue cobre boa parte da parede branca. Oswaldo nem olha o corpo de Beatriz atrás da bancada, nem a poça de sangue em volta da cabeça da mulher. Devagar, ele coloca outra bala no tambor. Põe o revolver no céu da boca e sem pestanejar aperta o gatilho outra vez. O cheiro de pólvora enche todo o lugar.

Mário não foi àquela noite buscar Beatriz e nunca mais ouviu falar dela.

ps: infelizmente baseada em fatos reais.

3 Comments:

At 6:31 PM , Blogger Marcelo Fonseca said...

Oswaldos, Mários, Beatrizes, Catarinas, quantos tipos assim precisam ser inventados para sacarmos o quanto a vida é uma pródia amarga de si mesma.Me vi em momentos ocmo telespertador e como personagem. doído como os tapas de traição e loucura são. amargo como só as coisas verdaeiras são. á arte nossa amiga tão perseguida e comentada, tem -se que irriga-la de ma terial humano para que fiqeu viva, que seja couro queimado ou sangue na parede.

soberbo.
um abraço.

 
At 8:06 AM , Blogger Caio, o guilherme said...

Quando tudo parece melhorar, piora!
Você captou essa ironia da vida de forma incrível...

parabéns.

 
At 10:44 PM , Blogger Projeto Sapiens Demens said...

Fazia tempo que eu não passava por aqui. Por um momento pensei que Mário mataria Beatriz, não sei porque mas sempre acho que o mal virá daquilo que aparentemente salva a sua vida, como se fosse um paradoxo cínico!

Abraços truta!

 

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