Razão e Crítica da Razão em “Ocidentalismo: O Ocidente aos olhos de seus inimigos”

O “Ocidentalismo” e o Ocidente
Buruma e Margalit procuram estabelecer um diálogo com a obra clássica de Edward Said intitulada “Orientalismo”. Nesta obra, Said analisa as formas de preconceito ocidental para com o homem oriental, denominando este movimento cultural sistemático como “Orientalismo”. Deste modo, o orientalismo configura-se como uma redução preconceituosa e grosseira por parte do Ocidente para com a cultura e o homem oriental. O diálogo com Said configura-se pela utilização do mesmo argumento para a composição deste outro ensaio, agora intitulado “ocidentalismo”: assim “O retrato desumano do Ocidente pintado por seus inimigos é o que chamamos ocidentalismo” (Buruma, Margalit, 2006. Pág. 11)
Buruma e Margalit apontam que o ódio à modernidade é a base para o ódio ao Ocidente, e que de certa maneira, estes termos tornam-se intercambiáveis e difusos: determinar conceitualmente “ocidente” e “modernidade” é uma tarefa altamente subjetiva, e ambos os conceitos podem ser lidos de diferentes formas dependendo da abordagem promovida por cada autor. Porém, como apontam Buruma e Margalit, seus significados passam ser inter-relacionados e intercambiáveis para a perspectiva ocidentalista, que necessita balizar sua visão do “Ocidente” através de uma perspectiva reducionista e preconceituosa.
Grosso modo, podemos definir modernidade como a soma de diversas mudanças de paradigma na percepção do ser humano quanto à realidade e a maneira de compreendê-la. O processo apontado por Max Weber como “desencantamento do mundo” (ou seja, a revisão da ferramenta mítica como base para a compreensão do mundo) coloca a racionalidade no ponto central para que o homem entenda o mundo e seus fenômenos. A razão passa agora também a estabelecer metas e planos para que se possa reconfigurar a realidade.
Neste sentido a Razão e a Ciência surgem como as únicas maneiras de se entender o mundo. O iluminismo que surge na França em princípios do século XIX sugere que a racionalidade é a única capaz de levar ao progresso humano. Deste modo, a ciência surge baseada na racionalidade e na construção de um pensamento lógico, visando o progresso da humanidade. Auguste Comte propõe o método positivo para as ciências, com o objetivo de que toda a dedução cientifica deve ser positivada, ou seja, passível de experimentação empírica, retirando qualquer tipo de conotação metafísica que possa interferir na compreensão dos fenômenos, tanto de ordem natural, como os advindos das relações sociais.
A democracia e o liberalismo econômico surgem como expressões desta idéia: a razão e a ação racional (ou seja, o calculo racional de meios para fins) apontam para que as ações humanas devam seguir para a conquista do bem estar, a promoção da individualidade e a conquista da liberdade. A democracia e o liberalismo surgem como as formas de regulação político-econômica que possam potencializar o progresso humano, trazendo as questões da modernidade para o campo da regulação estatal.
Deste modo, para os autores, o Ocidente acaba relacionado a Razão, a Ciência, ao Liberalismo, a Democracia e ao Materialismo. O “Ocidentalimo” percebe o ocidente reduzido a algumas poucas idéias, uma “civilização máquina”, onde a mercantilização das ações humanas estaria sobrepujando a capacidade humana de ir além, de superar a mediocridade da vida cotidiana burguesa.
“Podemos compartilhar a visão de Dostoievski sobre o comportamento humano, mas sua visão do Ocidente como um gigantesco palácio de cristal, guiado por nada mais que o árido racionalismo, é uma distorção desumanamente ocidentalista. Ele poderia ter incluído entre os “milhões de fatos” o exemplo dos homens bomba de hoje, que desafiam o cálculo utilitarista do comportamento humano. Sua opinião é, no entanto que aqueles que vivem no palácio burguês possivelmente não são capazes de entender a disposição para se entregar a tal sacrifício. E isso é algo com o qual os ocidentalistas fanáticos de nossos dias estariam completamente de acordo” (BURUMA e MARGALIT, pág 99, 2006)
Buruma e Margalit sugerem que a gênese da crítica a racionalidade trazem em si a gênese para a criação de um pensamento Ocidentalista, e que a pressuposição teórica destes autores (neste caso, nossa análise foca-se exclusivamente Nietzsche e Dostoievski) são formas primárias do que se configuraria mais tarde como uma perspectiva Ocidentalista.
Nossa posição vai pela caminho inverso: Buruma e Margalit utilizam-se das perspectivas destes autores de uma maneira reducionista, para também corroborar suas idéias.
Dostoievski particularmente sabe do que está falando: em 1871 produz o romance Os Demônios, onde narra as ações de um grupo terrorista-niilista que tem por objetivo promover uma Revolução Socialista na Rússia. Para tanto, Piotr Stiepanovitch, líder do movimento revolucionário, assassina um de seus companheiros (Chigaliov) a fim de com esta ação promover o inicio de uma convulsão social que se espalharia por toda a Rússia. Piotr Stiepanovitch tem como objetivo a estabilização de uma nova ordem social na Rússia, estabelecendo o controle de 10% da população sobre o restante, baseadas em valores anti-Racionais (Ocidentalistas, na perspectiva de Buruma e Margalit). Vale lembrar aqui uma de suas falas:
“Chigaliov é um homem genial! Sabe, é um gênio como Fourier; porém mais ousado que Fourier; vou cuidar dele. Ele inventou a igualdade! No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a deletar. Cada um pertence a todos, e todos pertencem a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos, recorre-se a calunia e ao assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e dos talentos. O nível das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis! Os talentos superiores sempre tomaram o poder e forma déspotas, sempre trouxeram mais depravação do que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo. Ah, ah ah, está achando estranho? Eu sou a favor do Chigaliovismo!” (Piotr Stiepanovitch
Dada esta passagem, podemos inserir Piotr Stiepanovitch como um profundo Ocidentalista: sua personalidade é marcada pelo ódio a sociedade Ocidental e toda sua idéia de liberdade, razão e progresso. O Grupo de Piotr Stiepanovitch busca convulsionar a Rússia, para simplesmente acabar com o processo de Ocidentalização corrente, advindo das Reformas de em 1961 (este também sendo visto como um processo vindo desde Pedro o Grande e suas iniciativas Ocidentalizantes) A Rússia encontra-se em crise, e deste modo, duas perspectivas colocam-se frente a frente: de um lado o Eslavismo – que comunga com as idéias de Buruma e Margalit sobre o Ocidentalismo, e uma perspectiva Liberal (pró Ocidente) pautada na necessidade de progresso econômico para o país.
Dostoievski escreve Os demônios em meio esta crise na percepção: deste modo, transforma seu livro em uma espécie de “experiência”, onde pode concentrar toda a dialogia de pensamento que existia nos meios intelectuais Russos, para criar uma novela onde cada uma destas representações entram
Como já apontado, Buruma e Margalit apontam que muita das perspectivas Ocidentalistas são baseadas (em parte) na construção de um pensamento critico a racionalidade moderna. O desenvolvimento das críticas a Razão e ao imperativo da positividade em Dostoievski encontram ecos nos trabalhos de Nietzsche. Buruma e Margalit apontam que o pensamento de Nietzsche também é fruto de uma perspectiva Ocidentalista (ou seja, de redução da complexidade do “Ser” Ocidental a um punhado de preconceitos e reducionismos). Na perspectiva de Buruma e Margalit:
“As idéias de Friederich Nietzsche sobre a vontade humana teriam igualmente um grande impacto sobre os pensadores russos. (...) A visão de que a ação humana deveria ser guiada pela razão é, nesse sistema, equivocada e deveria ser suplantada pelo voluntarismo, a idéia de que a ação deve ser estimulada pela pura vontade. A vontade é superior a razão. A razão, para os voluntaristas, em vez de nos dar razões genuínas para a ação, oferece-nos apenas falsas racionalizações para não agir.
A efetuação e a pura vontade também, eram, obviamente um tema maior do fascismo e do nazismo.” (BURUMA e MARGALIT, pág. 92, 2006)
Mais uma vez podemos notar uma interpretação equivocada do pensamento crítico a Racionalidade Moderna para a consolidação do argumento das fontes Européias do Ocidentalismo: Nietzsche pondera
“Quem acreditou haver compreendido algo de mim, havia me refeito como algo a sua imagem – não raro um oposto de mim, um “idealista”, por exemplo; quem nada havia compreendido de mim negou que eu tivesse de ser considerado. – A palavra “super homem”, para a designação de um tipo que vingou superiormente, em oposição a homens “modernos”, a homens bons, a cristãos e outros niilistas – palavra que na boca de Zaratustra, o aniquilador da moral, dá o que pensar – foi entendida em quase toda parte, com a total inocência, no sentido daqueles valores cuja antítese foi manifesta na figura de Zaratustra: quer dizer, como tipo “idealista” da mais alta espécie de homem, meio santo, meio gênio” (Nietzsche, pág. 54, 2005)
Neste sentido pode-se perceber claramente a real dimensão da crítica de Nietzsche a Razão Ocidental; Nietzsche não está criticando a racionalidade Ocidental e defendendo um retorno as idéias românticas Alemãs para a percepção do homem: Nietzsche aponta uma grave crise no pensamento ocidental, e isto se refere a toda a percepção do homem pelo próprio homem.

2 Comments:
Quando vi o tamanho, pensei "e ele anda querendo escrever curto". Lembrei dos papos sobre o Sábato e o Trevisan. Aqui não tem por onde. análise acertada e crítica digna dos cientistas que ambicionamos ser, demanda espaço sem medo de gastar caracteres.E não é só espancar o teclado com uma névoa que tem de ser descarregada da mente. O que mostra a maestria que é se apropriar de um cabedal de referências muito melhores lidas e interpretadas. Talvez os autores não tenham lido como nós estes que nos inpiram. Eu acredito que muitas vezes para se entender o objeto de estudo para além do distanciamento crítico que o camaradada Marx propunha, só sendo elástico na análise, sem medo de afundar os pés na lama, mesmo que depois voltemos correndo ao refúgio de nossas escrivaninhas. Leremos o mundo em sua complexidade, nos ensaios, na análise crítica que vence o senso comum, mas sobre tudo através dos poros.
muito bom,
vai um café antes das férias acabarem?
abraço.
Estava fazendo uma pesquisa sobre Nietzsche para a faculdade quando conheci seu blog, era exatamente para relacionar a crítica da razão ocidental feira por ele.
Seu texto ficou muito bom e me ajudou bastante, obrigada.
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