Resenha - A Guerra em Debate (Arguing About War)
"A Guerra em Debate"Michael Wazler (Estados Unidos)
Editora Livros Cotovia
Sem tradução no Brasil
“Quando a guerra não é a guerra? Quando é travada com os métodos da barbárie”.
Sir Henry Campbell-Banneman, líder do partido liberal Inglês à época da guerra dos Bôeres.
“Em matéria de política, os homens vivem sempre a argumentar pró ou contra alguma coisa, a debater os méritos e os deméritos de orientações que se contrastam, a discutir acerca da sabedoria dos fins últimos e a pesar a eficácia dos possíveis meios. Em resumo: empenham-se numa luta a respeito de valores”.
Leslie Lipson, cientista político Norte Americano.
Diante do sem número de guerras e conflitos que hoje existem no mundo, quase sempre somos impelidos a emitir uma opinião. Apontar a justiça e a injustiça de determinados atores em um conflito, suas motivações, seus meios e seus fins é uma árdua tarefa, e a filosofia política sempre se debruçou sobre o tema, a fim de procurar estabelecer parâmetros de análise e julgamento em uma situação tão extrema quanto à guerra. No panorama atual, um filósofo se destaca por procurar desmontar argumentos e apontar caminhos e balizas para que se empreendam julgamentos morais sobre os conflitos humanos. Michael Walzer é cientista político, nascido nos Estados Unidos no ano de 1935 e atualmente leciona na School of Social Science no departamento de Estudos Avançados
Em 2004, Walzer publica seu novo livro, “A Guerra em Debate” (lançado em Portugal pela Livros Cotovia, sem tradução no Brasil), uma coletânea de textos publicadas em revistas especializadas e palestras. Neste novo livro, Walzer faz duas importantes contribuições para a nossa compreensão da sua conceitualização atual da teoria da Guerra Justa: faz algumas revisões e atualizações em sua teoria (em especial sobre a noção de justiça no pós-conflito, ou jus post bello) e introduz e amplia sua análise levando em consideração a importância atual do terrorismo, especialmente após os ataques de 11 de setembro. O livro também nos oferece uma coleção de textos e ensaios contendo análises de conjuntura de alguns conflitos importantes para as relações internacionais no período pós-Guerra Fria, como a Guerra do Golfo e a intervenção no Kosovo; bem como de conflitos contemporâneos como atual invasão do Iraque pelos Estados Unidos, a guerra do Afeganistão e os confrontos entre Israel/ Palestina, sintetizando assim, em uma única obra, sua posição enquanto observador e polemista em contextos de importância atual.
Dada sua posição intelectual, uma das questões mais relevantes no que concerne ao pensamento de Michael Walzer é sua postura crítica, tanto em sua perspectiva político-ativista, como teórica. No primeiro capítulo de “A Guerra em Debate”, Walzer relembra o impacto do conflito no Vietnã nos círculos intelectuais da esquerda Americana, que caminharam rumo a uma abordagem teórico-moral da guerra calcada na retomada dos conceitos da antiga tradição escolástica da Guerra Justa: “O Vietnã alterou tudo isso (...). A guerra tornou-se um tema do debate político; havia forte oposição a guerra, nomeadamente nos meios de esquerda. Tratava-se de pessoas fortemente influenciadas pelo marxismo; falavam também uma linguagem de interesses; também elas, como príncipes e os professores da política americana, desdenhavam qualquer moralização. Apesar disso, a experiência da guerra forçou-as a recorrer a argumentos morais. (...) Quase contra a vontade, a esquerda caiu na moralidade. Todos nós, no campo anti-guerra, desatamos de repente a falar a linguagem da guerra justa” (WALZER, 2004. Pág. 25).
Em toda sua obra que aborda moralmente a guerra, Walzer busca trabalhar com a linguagem moral comum com a qual as pessoas julgam o uso da violência organizada em suas diversas circunstâncias e níveis, propondo assim uma abordagem normativa para as questões que envolvem as limitações morais da guerra. Para Walzer, o ponto mais pertinente em seu trabalho não é tratar da lei (as formas as quais julgamos os crimes de acordo com uma regra positivada), ou a forma a qual entendemos o direito internacional (e como os países articulam perspectivas comuns a assuntos que lhes concernem, fundando práticas comuns e regimes): a questão principal da análise para o autor é o julgamento moral, a linguagem comum, as balizas coletivas com as quais se estabelecem noções de certo e errado, em resumo, os princípios com os quais são julgadas ações como sendo legítimas ou ilegítimas. Nas palavras do autor, “A teoria da Guerra Justa (...) é, em primeiro lugar, uma argumentação sobre o estatuto moral da guerra enquanto atividade humana. O argumento é duplo: diz que a guerra se justifica às vezes, e que a condução da guerra está sempre sujeita a crítica moral” (WALZER, 2004. Pág.11).
Atualmente a teoria da Guerra Justa é de vital importância para a compreensão de como se articulam os processos de política interna e externa, em especial, de como os governos procuram justificar ações em âmbito externo para o público interno, bem como diante da comunidade internacional, e “A Guerra em Debate” vêm para contribuir para a problematização desta questão. Em seu capítulo intitulado “O triunfo da teoria da Guerra justa (e os perigos de seu sucesso)” Walzer nos diz que: “(...) os governantes deste mundo adotaram a teoria e não fizeram nenhuma guerra sem a descrever – ou sem arregimentar alguns intelectuais que assim a descrevessem - como uma guerra pela paz e pela justiça” (WALZER, 2004. Pág. 22). Surge assim um problema fundamental para as perspectivas atuais da teoria: sua instrumentalização, pelo Estado, para a justificação e legitimação de ações nem sempre (ou quase sempre) injustas. Como aponta Walzer: “O triunfo da Guerra Justa é suficientemente claro; é surpreendente a prontidão com que os porta-vozes militares, durante as Guerras do Kosovo e do Afeganistão, recorrem as suas categorias, contando uma história causal que justificava a guerra e fornecendo relatos de batalhas que acentuavam a contenção com que estas eram travadas” (WALZER, 2004. Pág.30).
Em Guerra em Debate, Walzer assinala que um dos mais importantes temas morais atuais sobre as guerras é a responsabilidade dos Estados em manter a ordem e a paz em países que sofreram intervenções. Neste sentido, mais uma variável é introduzida nas conceitualizações da teoria da Guerra Justa, somando-se às considerações clássicas do jus ad bellum e do jus in bellu: o jus post bellum insere-se aqui como a justiça no pós-combate, ou seja, da responsabilidade moral dos países interventores em garantir a reconstrução da ordem em países que passaram por processos agudos de intervenção e conflitos. Esta é uma reformulação radical da perspectiva de Walzer da teoria da Guerra Justa (originalmente propostas em seu livro de 1977), que visava exclusivamente à retomada do Status Quo em processos de intervenção e contra-intervenção. Walzer justifica esta reformulação da teoria de acordo com os processos atuais de intervenção humanitária colocados em prática pelos Estados e Organizações Internacionais a fim de frear processos de limpeza étnica e genocídio em conflitos civis: “(...) sinto-me mais disposto a defender as ocupações militares duradouras, sob a forma de protetorados e de administrações territoriais, e a considerar a reconstrução de nações como parte necessária da política do pós-guerra. Ambas estas mudanças de perspectiva exigem-me também que reconheça a necessidade de um alargamento da teoria da Guerra Justa. Jus ad bellum (que trata da decisão de entrar em guerra) e jus in bello (que trata da condução das batalhas) são elementos padrão da teoria e foram elaborados inicialmente por filósofos católicos e pelos juristas da Idade Média. Temos agora de acrescentar a estes dois elementos o jus post bellum (a justiça depois da guerra)” (WALZER, 2004. Pág.15). É interessante notar a convergência destes novos elementos da teoria da Guerra Justa com aspectos desenvolvidos pelos teóricos que estão abordando a idéia de Estados Falidos e Construção de Estados[1]. Esta aproximação torna-se paradigmática na medida em que notamos a aproximação dos argumentos da esquerda americana e das percepções e análises propostas dentro do estabilishment do pensamento norte-americano mais conservador.
O terror mereceu especial destaque nos textos selecionados de “A Guerra em Debate”. A principal argumentação de Walzer quanto ao terrorismo é que esta é uma prática indefensável (a não ser, no raríssimo caso do “último recurso”). Walzer procura apresentar o terror como uma escolha política deliberada entre homens e mulheres a fim de se atingir um objetivo político concreto. A questão aqui não é a justiça ou a injustiça do objetivo político pretendido: a questão está, para o autor, concentrada na escolha dos meios. Para Walzer, o terrorismo se baseia na inclusão do medo na vida cotidiana de uma determinada comunidade política, sendo que esta situação de insegurança generalizada só é possível devido à característica que é própria do terrorismo: a aleatoriedade. Nas palavras de Walzer: “As vitimas de um ataque terrorista são terceiros, observadores inocentes; não existe qualquer razão para atacar; qualquer outra pessoa, dentro de uma vasta classe de pessoas (sem qualquer relação entre elas), servirá. O ataque é dirigido de um modo indiscriminado contra toda uma classe. (...) o terrorismo é aleatório, degradante e assustador. É esta a sua marca distintiva e é por isso que não pode ser defendido” (WALZER, 2004. Pág.69, 70). Walzer se concentra no que chama de uma “Crítica das Desculpas” e assim aponta que o terrorismo deve ser sempre colocado em seu contexto, como resultado de ações deliberadas de responsabilidade de homens e mulheres. Para Walzer, a idéia de uma ação política calcada no uso da violência aleatória é sempre uma escolha política ilegítima, pois “os estados legítimos não precisam aterrorizar os seus cidadãos, e os movimentos que tem uma base de apoio forte não precisam aterrorizar os seus opositores. Os governantes e militantes que vivem, digamos assim, nas margens da legitimidade e da força, escolhem por vezes o terrorismo e outras vezes não. Viver no terror não é uma experiência universal. O mundo que os terroristas criam tem suas entradas e saídas” (WALZER, 2004. Pág.69, 75).
“A Guerra em Debate” torna-se assim uma obra de referência nas re-atualizações das análises morais da guerra, apontando caminhos e argumentos importantes para uma crítica da utilização da violência política no mundo contemporâneo. Porém, após a leitura dos apontamentos e argumentos apresentados pelo autor, duas dúvidas apresentam-se inevitáveis.
A primeira se coloca diante do estranho paradoxo colocado na obra: seguindo sua linha argumentativa, vemos que a postura eminentemente crítica diante da guerra que Walzer tanto exaltou em seus trabalhos anteriores se reconfigura na justificativa cada vez mais factual de processos de guerra preventiva, relativização de soberania e ingerência, bandeiras levantadas especialmente durante o governo de George W. Bush nos momentos seguintes ao ataque do World Trade Center em 2001.
Em um segundo momento, surge outra questão: é possível argumentar uma análise moral da guerra através em uma idéia de uma perspectiva moral comum? Ou ainda, para quem Walzer se dirige com seu livro, e seus argumentos? Quem são seus interlocutores? Em nenhum momento de sua obra, o autor nos indica referências fundamentais sobre os caminhos claros para a compreensão de quais balizas morais comuns sãos os pontos de apoio de sua análise. Logicamente, a discussão a cerca da validade de princípios morais universais foge ao escopo desta resenha, mas é impossível não ouvirmos ecos da crítica de Hedley Bull ao trabalho de Michael Wazer: “Se a discussão a cerca da Gurra Justa vai ser algo mais do que o mero intercâmbio de opiniões, então devem-se primeiro, estabelecer algumas bases” (BULL, 1979).
Bibliografia:
BULL, Hedley: La reintegración de la noción de guerra justa en
FUKUYAMA, Francis. Construção dos Estados. Editora Rocco, São Paulo. 2005.
WALZER , Michael: A Guerra
WALZER, Michael: Guerras Justas e Injustas: Uma Argumentação Moral com Exemplos Históricos. Editora Martins Fontes, São Paulo. 2003.
[1] Como afirma Francis Fukuyama no prefácio de seu livro Construção de Estados: “Neste livro, eu afirmo que a construção de Estados é uma das questões mais importantes para a comunidade mundial, porque Estados fracos ou fracassados constituem a fonte de muitos dos problemas mais graves do mundo, da pobreza, a AIDS, drogas e terrorismo” (FUKUYAMA, 2004. Pág. 9)

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